Sobre a fixação de doutores no Brasil

É provável que isso aconteça em outras áreas, embora em algumas seja um pouco mais difícil. Entretanto, quando se está trabalhando com populações naturais, é uma realidade que pode ser mais comum do que se pensa.

Qual é o objetivo da formação de doutores? É provável que haja mais respostas, mas imagino eu que seja para formar recursos humanos capacitados para multiplicar o potencial de pesquisa de um país em determinada área. Logo, o que esperamos destes doutores é que eles assumam novos postos, novas frentes, objetivando seguir a linha de pesquisa dominada durante o processo de doutoramento, preferencialmente em regiões distintas do local onde fez seu doutorado. A permanência no local do doutoramento é interessante e importante especialmente para a renovação do quadro pessoal e também para impedir que a aposentadoria dos pesquisadores seniores seja seguida da morte de uma linha de pesquisa na instituição.

O problema (ou não) é que é impossível que todos os recém-doutores permaneçam no mesmo local em que se formaram. Assim, a maioria dos doutores precisa arrumar emprego em outros lugares, o que é interessante para a multiplicação do potencial de pesquisa de um país. Às vezes alguns conseguem se fixar em institutos de pesquisa e universidades já consolidadas, onde vão somar a grupos de pesquisas já existentes. Outros acabam se fixando em universidades estaduais com poucos recursos e pouca tradição em pesquisa (exceto no Estado de São Paulo), ou em instituições federais, especialmente com os investimentos dos últimos anos em criação de novos campi de universidades federais (a apreensão sobre a consolidação destes projetos tendo em vista os cortes realizados pelo novo governo seria um tema para outra postagem). Assim, acabam por fixar-se nestes locais onde tudo está em construção e laboratórios de pesquisa precisam ser montados mesmo diante da priorização absoluta em relação à área didática. Aqui já temos uma questão que merece uma discussão mais aprofundada. Afinal, uma universidade não é um local de geração de conhecimento? Então por que devemos priorizar a todo custo a área didática? Não estou dizendo que a montagem de laboratórios de aulas práticas não seja importante, mas por que não prever pesquisas associadas a estes laboratórios? Afinal, não se está contratando doutores?

Vez por outra vemos informações sobre os esforços para fixação de doutores no país, pois quem faz doutorado ou pós-doutorado no exterior acaba preferindo ficar por lá se tiver alguma proposta. Mas não basta dar o emprego. Se o pesquisador é bom o suficiente para receber proposta para ficar no exterior, não é o emprego que ele quer, é condições para realizar pesquisa sendo bem remunerado para isso.

No ano de 2008, o CNPq teve um edital para bolsas de produtividade em pesquisa exclusiva para estes novos doutores, fixados em novos campi de universidades federais. Uma proposta interessante, mas que não se repetiu. Há também os editais da FINEP para infraestrutura, que vêm dando um apoio importante para construções de laboratórios e compra de equipamentos, e alguns editais de Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais para recém-doutores, mas com baixo montante de recursos. De modo geral, os recém-doutores precisam concorrer em editais mais amplos, onde os pesquisadores seniores também concorrem. Aí vão anos de currículo montado com o trabalho de orientação de mestrados e doutorados contra currículos formados há poucos anos.

Eu já tive resposta de edital do CNPq cuja proposta foi indeferida, onde o relator afirmou que o projeto é interessante mas não apresenta grandes novidades. Nem poderia! Para fazer uma proposta apresentando grandes novidades na área em um laboratório em implantação, eu precisaria de recursos muito maiores do que os disponíveis. Idéias não faltam, mas se eu aumentar o orçamento, a resposta certamente será a de que não tenho experiência suficiente para receber tantos recursos (já cansei de ouvir isso de pares, afirmando que os recém-doutores precisam mandar propostas simples para conseguir financiamento). Então, propostas simples, não são aceitas por serem simples. Propostas mais inovadoras, não são aceitas por falta de experiência.  Claro, sempre é possível ter a sorte de ter um relator amigo seu para julgar a proposta. Quem conseguiu crescer sem puxar-saco certamente terá mais dificuldades.

Apesar de toda a dificuldade, os doutores estão sendo fixados. Bem ou mal, estão conseguindo seus primeiros recursos de órgãos de fomento e estão começando suas atividades de pesquisa. Conforme afirmado acima, estes pesquisadores tentarão seguir em sua linha de pesquisa. Quando se trabalha com populações naturais, todo este cenário significa uma coisa: começar pesquisas nas proximidades de onde está fixado, pois os recursos para saídas de campo ou coleta geralmente precisam ser sacrificadas para comprar um ou outro equipamento.

E o que fazer quando os grandes pesquisadores seniores, que obviamente seguem com seus alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, trabalhando com aquela linha de pesquisa, realizam suas expedições nas imediações de onde este recém-doutor está fixado?

Oras, o pesquisador sênior talvez já fizesse pesquisas por aquelas áreas há muito tempo. Ninguém em sã consciência diria para este pesquisador parar de trabalhar na região, afinal, não existem (ou não deveriam existir) donos de uma região ou organismo (aqui vai mais uma reflexão interessante, pois já cansei de ouvir reclamações de seniores sobre fulano ou beltrano trabalhando com espécies que ele trabalha há anos). Apesar disso, haveria necessidade de seguir com expedições de sua equipe, ás vezes centenas de quilômetros de distância, enquanto o recém-doutor em estabelecimento tenta iniciar suas atividades na região? E mais, haveria necessidade de fazer isso sem pelo menos entrar em contato com o recém-doutor? Se os objetivos de estudo, metodologias para obtenção dos dados, ou ainda os organismos estudadso são diferentes, talvez se justifique. Mas quando a linha de pesquisa é absolutamente a mesma, não faz sentido. Cada vez mais os órgãos de fomento estão incentivando a criação de redes de pesquisa. Não seria uma excelente oportunidade de somar esforços para conseguir resultados mais práticos e otimizar os recursos públicos?

Já não basta a concorrência desleal para conseguir recursos dos órgãos de fomento, mas os recém-doutores também precisam inventar outra coisa para fazer? Mas aí tem outro problema: se eu mandar um projeto com um tema totalmente diferente de minhas publicações e linha de pesquisa até então desenvolvida, quem é que vai financiar? Por exemplo, já tive uma bolsa de pós-doutorado recusada sob a alegação de que eu nunca havia trabalhado com a metodologia e não conseguiria aprender e desenvolver durante o projeto. Ok, sou limitado, mas tenho trabalhado com isto desde então, sem maiores problemas.

Eu não tenho todas as respostas para estas questões, mas acho que esta discussão é imprescindível se o Brasil quiser fortalecer suas instituições de pesquisa e, principalmente, fixar seus doutores. Entretanto, acredito que bom senso não faria mal nenhum.

 

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