Seriam estas as origens do puxassaquismo ou da moda?

Um experimento interessante foi realizado com chimpanzés na Universidade Estadual da Georgia. Nele foi demonstrado que chimpanzés seguem e copiam a escolha do dominante, deixando suas preferências pessoais de lado. Seriam estas as origens do que chamamos de puxa-saco? Mais traços nitidamente humanos que compartilhamos com nossos ancestrais.

O artigo pode ser lido aqui (ou pelo menos seu resumo).

Inicialmente foram treinadas duas chimpanzés dominantes que serviriam de modelo para dividir 12 outros chimpanzés em dois grupos. Os modelos escolhiam um determinado item (uma barra plástica de 20cm de comprimento, a partir de agora denominada item 1) em uma caixa e entregavam a um tratador para receber uma recompensa. Recompensas para chimpanzés significam comida. Vários experimentos já demonstraram que uvas são recompensas de nível alto para chimpanzés enquanto cenouras são recompensa de nível médio (esqueçam as bananas, chimpanzés gostam mesmo é de uvas). Assim, um modelo foi treinado para trocar o ítem 1 por cenoura (recompensa de valor médio – MR) enquanto o outro modelo foi treinado para trocar o item 1 por uvas (recompensa de valor alto – HR). Durante este treinamento, a troca de um outro item (um bloco cilíndrico, a partir de agora denominado item 2) não resultava em nenhuma recompensa, o que forçava os modelos a preferirem trocar o item 1.

Depois do treinamento, os modelos foram colocados nos grupos. Em um lado da jaula foram colocados os dois itens (1:1) e o tratador ficou do outro lado aguardando as trocas. Em ambos os grupos os modelos fizeram as primeiras trocas utilizando o item 1. Vale lembrar que o grupo MR trocava o item 1 por cenouras e o item 2 por uvas, enquanto o grupo HR trocava o item 1 por uvas e o item 2 por cenouras.

O primeiro interessante resultado foi que os chimpanzés do grupo HR observaram mais os modelos fazendo as trocas e trocaram mais itens que os chimpanzés do grupo MR. Em relação às trocas, todos os chimpanzés do grupo MR trocaram preferencialmente o item 1 pelas cenouras (98% das trocas), mesmo tendo todos eles trocado pelo menos uma vez o item 2 por uvas. Vale ressaltar que estes mesmos chimpanzés demonstraram na preparação do experimento uma preferência por uvas de mais de 90%. Por que razão eles continuaram trocando o item 1 por cenouras e não trocaram mais o item 2 por uvas? Os autores atribuem este comportamento a um conformismo. Uma vez que o modelo, uma chimpanzé dominante, fazia este tipo de troca, eles seguiram fazendo, mesmo sabendo que trocar o outro item era mais interessante. Vale ressaltar que o comportamento do modelo era constante e isso poderia servir de alicerce para o estabelecimento de uma hierarquia e dominação do grupo. Eles até podem ter percebido outros chimpanzés trocando o item 2 pelas uvas, e mesmo experimentado esta troca, mas o dominante seguia trocando item 1 por cenouras.

Este comportamento, de seguir o pensamento do dominante em detrimento das escolhas pessoais é também comum a comunidades humanas. Copiar as ações do dominante pode ser um fato importante para a coesão do grupo, fazendo com que quem não o segue tenha mais dificuldades de relacionamento. Seguir padrões da moda, ritos religiosos, ouvir música comum do grupo, entre outros comportamentos podem ser exemplos deste padrão.

Por sua vez, o outro grupo, que trocava o item 1 por uvas, mostrou-se mais variado, tendo cerca de 78% das vezes trocado o item 1 por uvas. Outro fato interessante, observado em ambos os grupos foi o roubo dos itens, ou seja, um chimpanzé pegava um item na caixa e outro tomava da mão dele. Isso aconteceu cerca de três vezes mais no grupo HR. Um chimpanzé de cada grupo foi o alvo preferido, normalmente dos dominantes. Ambos adotaram uma estratégia diferente, passando a fazer as trocas quando os modelos estavam afastados, o que sugere que alterar a estratégia era possível quando e se necessário. Outra alteração na estratégia aconteceu no grupo HR onde os roubos eram mais freqüentes. Três chimpanzés trocaram mais itens 2 (por cenouras) que itens 1 (por uvas). Testes posteriores demonstraram que este fato não aconteceu pela maior preferência deles pelo item 2 (todos os chimpanzés apresentaram forte preferência pelo item 1 no pós-teste), o que sugere uma mudança de estratégia para ter uma recompensa, mesmo que seja de valor inferior. Os autores sugerem duas explicações possíveis para a maior freqüência de roubos no grupo HR. Uma delas seria a maior coesão do grupo MR, que estava junto há mais tempo. Outra explicação é a de que a recompensa de alto valor tornava os roubos mais atraentes para obtê-la mais rapidamente.

Não é incomum que vejamos pessoas fazendo o que dizem não preferir apenas para impressionar o chefe, o dominante. Demonstrar que gosta do que o chefe gosta muitas vezes é um passo importante para a carreira. Alguns diriam que é melhor puxar saco que puxar carroça. Por outro lado, isto também ajuda a explicar porque expressar opiniões divergentes muitas vezes é visto com desconfiança e desprezo.

 

Referência Bibliográfica:

Hopper, L. M., et al., Chimpanzees’ socially maintained food preferences indicate both conservatism and conformity, Animal Behaviour (2011), doi:10.1016/j.anbehav.2011.03.002

 

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