Pelo uso racional dos animais

Depois de dois textos muito interessantes sobre o uso de animais em testes de medicamentos ou cosméticos eu pensei muito se valeria a pena mais uma contribuição ou se efetivamente eu teria algo a contribuir, pois tudo que era necessário se dizer estava nestes textos. Um deles menos antigo e outro mais antigo (até porque, esta discussão não é de hoje). Resolvi tentar.

Adianto que vou fazer duas abordagens. Na primeira, uma discussão sobre a ética e o uso de animais em si. Na segunda entrarei em aspectos técnicos. Muito provavelmente os mais extremistas sequer chegarão à segunda parte, mas espero francamente que cheguem. Depois vou tentar retomar o início da discussão. Quero deixar claro, ao final do texto, que se você tem empatia e quer o melhor para os animais, não se preocupe, estamos do mesmo lado.

Se por algum motivo você pensa que cientistas são pessoas sádicas, que fazem os animais sofrerem porque gostam, que são psicopatas, nem perca seu tempo lendo o texto. Pessoas que pensam assim não vão sequer ter o trabalho de pensar sobre o assunto, e é isso que estou propondo aqui.

A discussão sobre a invasão do Instituto Royal pelas redes sociais tem sido extremamente acalorada. Não poderia ser diferente quando se trata de algo passional. E é justamente por ser algo passional que dificulta uma discussão racional. Nestes casos muitas vezes deixa-se de lado as evidências e os fatos para defender um sentimento. O sentimento em questão não é um sentimento ruim. É afeto, é empatia por um ser vivo que não é de nossa espécie.

No início da discussão, antes de eu ficar muito “p da vida” com os “argumentos” utilizados passionalmente pelos defensores extremistas dos direitos dos animais, eu comentei que a questão ligada à ética em relação aos animais é por demais subjetiva. Como estabelecer um limite entre os animais que podemos utilizar e os animais que não podemos? Este limite será sempre arbitrário. O homem utiliza animais para inúmeras funções, desde a companhia até para a alimentação, trabalho no campo, obtenção direta de produtos animais (lã, ovos, leite, medicamentos), recreação (rodeios, pesque-solte, circo) e para os testes científicos diversos. Assim, podemos resumir a discussão em três aspectos: liberar completamente o uso de animais pelos humanos; proibir completamente o uso de animais pelos humanos; limitar o uso de animais pelos humanos. Se procurarmos bem, teremos simpatizantes dos três aspectos. É uma falácia simplesmente dizer que devemos buscar o caminho do meio. Há bons argumentos de ambos os lados (ou nem tanto). A questão aqui é que o caminho do meio não é tão simples, por isso é outro motivo de discussão.

Quando estou discutindo questões ambientais costumo dizer que é necessário que o homem perceba que faz parte da natureza. Só assim vai agir com responsabilidade suficiente para diminuir a devastação, até porque, ela nos levará à extinção. Aparentemente, a questão dos que defendem a produção agropecuária a qualquer custo ambiental é o outro extremo desta proteção implacável dos direitos dos animais. Começo a achar que não. Estou começando a pensar que o discurso deve ser o mesmo. Por quê? Por que tais extremistas também estão colocando o ser humano de lado, como algo separado e independente do restante do mundo natural, a ponto de poder prescindir de interações ecológicas longínquas entre eles. Diferente de dizer que os animais foram criados para nos servir, é dizer que somos interdependentes. Diferente de dizer que podemos explorá-los é dizer que podemos utilizá-los com responsabilidade até para defende-los de nós mesmo.

Ué, mas como assim? Bom, eu trabalho com pesquisas em animais. Peixes, especificamente. Fico extremamente irritado em ter que passar por uma burocracia tremenda para poder realizar meus estudos, enquanto na indústria pesqueira os peixes são simplesmente retirados da água e morrem por asfixia, sem comitê de ética e etc. Fico irritado pois sempre trabalhei com respeito e ética, mas compreendo a necessidade. Os meus estudos poderão servir para a elaboração de um plano de manejo que tenha mais sucesso na reintrodução de espécies em regiões antropizadas, entre outras coisas. Assim, vários estudos básicos levam animais ao sacrifício por razões diversas que vão desde o conhecimento básico sobre a biodiversidade até a descoberta de novos medicamentos. Isso também deve ser levado em consideração quando se opta pelo aspecto de proibir completamente o uso de animais pelos humanos. Fazer isso é dizer que está bom onde estamos, que não precisamos conhecer mais nada, que não precisamos de novos medicamentos obtidos da natureza, e por aí vai. Bom, mas o que fazer com todo o conhecimento que já foi obtido desta forma? O que fazer com os antibióticos, vacinas e inúmeros outros produtos mais que são utilizados pelos humanos há milênios às custas de vidas de animais? Não teríamos que abdicar disso tudo também? Se dissermos que devemos continuar usando para que o sacrifício dos animais tenha valido a pena cairemos no mesmo discurso dos que defendem a continuidade. Ver uma criança livre da poliomielite, erradicada graças à vacina que foi intensamente testada em animais, não é suficiente para dizer que valeu a pena? Tenho duas filhas e tenho absoluta certeza de que sim. Este é um dos motivos pelos quais não se consegue não chamar de hipócrita aqueles que defendem a completa proibição de todo o uso de animais. Todos os defensores desta ideia estão vivos por causa disso, por que é que querem, de repente, que as futuras gerações não tenham esta possibilidade? As alegações de defesa esbarram nas questões técnicas, que vou abordar adiante.

Neste momento começamos a vislumbrar as subjetividades da ética em relação ao uso de animais quando analisamos o aspecto do meio termo. Dentre aqueles poucos usos que citei, qual deles deveria ser o principal alvo de ativistas contra o uso de animais? Aqui cada um tem uma opinião. Alguns podem dizer que devemos começar pela alimentação. Outros do uso como animal de carga ou auxiliar de pequenos produtores rurais (afinal, já existem tratores para isso). Outros ainda dirão que são os utilizados na ciência, incluindo os testes farmacológicos.

Também haverá aqueles, como eu, que acham que devemos começar com os utilizados única e exclusivamente para o prazer humano. E nisso incluo as atividades chamadas esportivas, como o rodeio, pesque-solte, touradas e circo, assim como também incluo os animais de companhia. Sim, eu incluo os animais de companhia. Por que não? São criados exclusivamente para nosso bem estar. Alguém poderia dizer que eles não sofrem, que são bem cuidados, que gostam. Será que isso é válido para todos? Então por que é que há animais na rua? Então existem os responsáveis, que cuidam bem dos animais e por causa deles temos que permitir seu uso?

E quanto ao número de mutações e doenças genéticas trazidas à tona pelos excessivos processos de endogamia que culminaram nas diferentes raças de cães, por exemplo? A displasia coxo-femural das raças grandes, a obstrução de canais lacrimais em raças com focinho achatado, a prole reduzida em várias raças devido à endogamia. Muitos protetores vão replicar afirmando que também são contra estes processos e que devemos abrigar os animais de rua. Também acho. O problema é que o processo de seleção artificial é natural do ser humano. Em pouco tempo ele já terá cruzado novamente aqueles com as características que mais lhe agrada. A única forma seria eliminar por completo o uso de animais de companhia. Sem isso não temos o mercado e não temos os animais de rua. Os animais não precisam estar do nosso lado. Eles estão por uma necessidade nossa. Por que é que é tão fácil aceitar isso se estivermos falando de uma jibóia do que se estivermos falando de um cão? Por que temos empatia pela expressão deles, claro. E pela repugnância que vários outros animais causam na grande maioria das pessoas.

Existe algo mais fútil e mais fácil de ser substituído do que o uso de animais para prazer humano? Na minha opinião, não há. Pode substituir este prazer da companhia pelo prazer da companhia de outro ser humano, por exemplo. Por um passeio no parque ou na praia. Por uma bebida moderada. Podemos substituir os rodeios por outros eventos esportivos mais interessantes. Sem exceção, temos substituto para qualquer dessas atividades. Substitutos já existentes e com alto potencial.

Existe a questão da alimentação e dos produtos derivados da criação dos animais sem necessariamente implicar em sua morte, como lã, ovos e leite. Alguns implicam na morte, como a seda. A ética no uso de animais para alimentação é complicada. Há a questão de certos nutrientes que são obtidos pela origem animal e cujo suplemento seria necessário para uma boa dieta vegana. O problema é que ainda haverá ou animais ou outros organismos vivos sendo utilizados para se produzir isso. Há também a questão da produção e disponibilidade de uma ampla variedade de vegetais para se eliminar o uso de carne e que não é disponível fora dos grandes centros. O tema da alimentação é extenso e não é neste ponto que eu gostaria de me ater. É uma área possível de haver substituição, embora não em qualquer lugar e por qualquer pessoa, pois vai depender muito do poder aquisitivo. Deixar de usar roupas de lã, couro ou seda, entretanto, já é bem possível. De qualquer forma, duvido muito que alguém cogite a hipótese de entrar na casa de alguém e roubar a carne do congelador. Ou mesmo das fazendas de criação.

Você pode ter discordado de mim, mas por que a minha opinião em um assunto subjetivo vale menos que a sua, que resolveu começar pelo uso de animais em testes científicos? Estaria eu correto em invadir sua casa e liberar seus animais de estimação, que estão presos lá dentro? Onde está a ética? Alguém seria favorável a pegar uma criança na rua, levar para casa, tratar bem mas não deixa-la sair e controlar toda a sua vida?

E se a discussão fosse qual animal? Se utiliza serpentes para extrair o veneno que será aplicado em cavalos para a produção de soro antiofídico. Se utiliza ratos para boa parte dos experimentos de testes de fármacos. Alguns dirão que estes podem, mas que os cães não. É outro ponto de subjetividade que não se resolve facilmente.

Espero que esta pequena discussão tenha servido pelo menos para que os simpatizantes da ação no Instituto Royal tenham percebido que as coisas não são bem assim. A ética é extremamente subjetiva e passível de diferentes soluções. Nenhuma agradará a todos. Hitler achava que poderia fazer experimentos com humanos desde que não fossem da raça ariana. Falar para utilizar presidiários ou outras pessoas não difere em nada deste pensamento. Quem decidiria isso? A maioria da população? Mas a maioria da população alemã apoiou Hitler e quem diz que a maioria estava ou estará certa? Alguns disseram que seriam voluntários no lugar dos pobres animais. Será mesmo? Ok, então você olha para seu cãozinho, cuja relação empática é maior do que a empatia que sente por outro ser humano e diz que daria sua vida por ele. Eu daria minha vida pelas minhas filhas, entendo isso. Mas você daria sua vida por um rato? Por um peixe? Por um porco? Por uma galinha? Ademais, existem as questões técnicas pelas quais muito provavelmente você não poderia ser voluntário de teste semelhante.

Vale lembrar que o uso de animais em testes científicos para validar a segurança e eficácia de medicamentos e cosméticos é utilizado há muito tempo, mas teve um impulso grande nos anos 50 e 60 após os problemas com a talidomida. Qualquer um sabe hoje que a talidomida era um medicamento utilizado em várias situações (e ainda é). Sem haver estudos adequados, era utilizada por mulheres grávidas. Os resultados foram efeitos teratogênicos, crianças malformadas, cuja causa era obviamente o medicamento. Se a talidomida tivesse sido adequadamente testada muitas mortes poderiam ter sido evitadas.

Por tudo isso que expus até agora é que o uso de animais em testes e pesquisas seria um dos últimos passos que eu daria para eliminar completamente o uso de animais pelos humanos de modo compulsório. De longe é uma das ações fora a alimentação cujo sacrifício dos animais (quando há, como veremos) tem o maior valor e pode ser considerado por uma boa causa. E assim encerro a primeira parte, para tentar explicar as razões técnicas de por que, por mais atraente que seja a ideia de abolir o uso de animais, isso não será possível tão cedo.

É chover no molhado dizer que esta discussão não é nova, e que muitas ações já foram feitas para reduzir, repor e refinar (os três Rs já citados em outros textos) os estudos. A indústria de cosméticos, tão tripudiada nestas discussões, já não testa os produtos finais diretamente em animais há anos, pelo menos para boa parte dos produtos. Para irritação ocular, por exemplo, desde os anos 90 busca-se alternativas, entre elas as que utilizam olhos extirpados de animais (nos abates utilizados para outros fins, que fique claro) ou ainda abordagens mais complexas, mas que até 2009 ainda não puderam ser completamente validadas. Esta indústria tem sim feito muita coisa e investido muito dinheiro na busca por outras metodologias. A documentação científica está cheia de tentativas. Culturas de células in vitro, por exemplo, podem ser utilizadas para testes de reações de irritação em peles humanas. Em 2007 foi publicado um “status” das pesquisas de métodos alternativos e, de modo geral, os grandes problemas estão na validação. A validação é um procedimento necessário, pois é preciso mostrar que o teste sem animais é tão ou mais eficiente que o teste com animais. E aí muitos métodos não vão para frente.

Alguém pode dizer que em relação à indústria de cosméticos a substituição é fácil. Basta escolhermos os produtos de uma que afirma não fazer testes com animais. A empresa pode não estar mentindo, pois depois que mistura seus ingredientes e tem o produto pronto ela efetivamente não faz testes. E não faz isso por uma única razão: já conhece os resultados dos testes em animais para cada ingrediente. Sabem o que é seguro e o que não é. Simplesmente porque não podem liberar um produto que contenha um ingrediente não testado, tanto por questões legais quanto por questões empresariais. Que empesa iria adicionar um componente sem ter certeza de sua segurança, comprometendo milhares ou milhões de pessoas e, mais do que isso, fortunas em indenização? O brasileiro não tem ideia pois não costuma processar uma empresa se o produto dela lhe causou mal, mas nos EUA e Europa isso é comum. Tão comum que, por exemplo, um ferro elétrico precisa vir com o aviso de que você não pode utilizá-lo para passar roupas enquanto as estiver vestindo. Parece idiota, mas isso está lá pois alguém fez e processou a empresa pois não havia esta explicação. E ganhou! Ou seja, mesmo que a empresa de cosméticos lhe diga que não testa em animais, isso não significa que não houve testes para os ingredientes da fórmula. Quer um exemplo? Uma das empresas que afirmam não testar em animais é a Natura. Mas eu deixo claro que poderia pegar qualquer outra do site da PETA (não tenho nada contra a Natura e não estou dizendo que eles mentem, eles estão falando sério quando dizem que seus produtos não são testados em animais, mas eles diriam o que se você perguntasse quanto aos ingredientes utilizados?). No sabonete infantil tem um composto, dióxido de titânio. Pois bem, você pode ver que este produto foi testado em camundongos e ratos em inúmeros artigos de pesquisa científica, por exemplo aqui, aqui e aqui. Também pode ver testes de absorção na pele neste artigo em ratos e neste em porcos.

Enfim, existe muita pesquisa sobre alternativas, mas se ainda não há resposta para tudo, há uma considerável redução no uso de animais. A União Europeia decretou um prazo para a proibição da liberação no mercado de cosméticos que sejam testados em animais. Este prazo é 2013, com a ressalva de poder se estender caso não haja metodologia validada disponível. Em 2011 foi publicado um artigo que ouviu vários experts em cada área de pesquisa que utiliza animais para testes e eles foram francos em admitir que para sensibilização de pele ainda levaria de 7 a 9 anos para métodos alternativos validados. Para toxicocinética (como o organismo lida com o produto) são mais 5 a 7 anos. Para toxicologia sistêmica, dosagem repetida, carcinogênese e toxicidade reprodutiva não há espectativa.

Oras, mas como assim? Não dá pra fazer testes in vitro, em cultura de células? Para várias coisas dá e estes são efetivamente os testes preliminares. Depois de ver um potencial de um produto novo nestas culturas de células é que se passa para os demais testes. O problema está na complexidade dos organismos vivos. O produto precisa entrar no organismo, seja por absorção na pele ou por ingestão. Precisa ganhar a corrente sanguínea e com isso alcança não somente o fígado, mas todo o organismo. É preciso saber o que vai acontecer em cada tecido, órgão. É preciso saber o que o fígado vai fazer com ele e o que vai acontecer com o resultado disso. É preciso avaliar a curto e a longo prazo qual vai ser o efeito. Não há possibilidade de um tubo de ensaio dizer tudo isso.

Para ter uma noção de como uma nova droga é liberada você pode ler este artigo. Vou tentar resumir. Primeiramente acontecem os testes preclínicos. Depois existem as fases clínicas, ou seja, os testes em humanos. Os testes clínicos acontecem em geral em 5 ou 6 fases.

Na primeira fase estão os testes preclínicos. Envolvem a descoberta de um princípio ativo e o estudo de sua função. Isso pode ser feito em tubo de ensaio, pode ser feito com culturas de células. Você certamente já leu notícias de que os cientistas descobriram uma nova droga que pode ser usada para a cura do câncer. Aí você sai das manchetes sensacionalistas e lê que os pesquisadores testaram e a droga foi efetiva em células tumorais por reduzirem seu crescimento ou por atacarem-nas. Daí até algo ser liberado para o mercado é um processo longo. O passo seguinte é descobrir quais as doses que podem ser administradas e se dentro de um organismo a droga não vai causar mais problemas do que soluções. Ainda estamos nos testes preclínicos e aqui entram os animais. As normas exigem o teste em pelo menos dois modelos animais, normalmente um murídeo (rato ou camundongo) e um canídeo embora primatas e porcos também possam ser utilizados. A escolha do modelo animal depende de que droga se está testando. Se a absorção é intestinal, então não pode ser um cão, pois o intestino de carnívoro é diferente. Ratos não podem ser cobaias para testes de antibióticos pois as alterações em sua flora intestinal causa efeitos adversos significativos. Ou seja, nada é feito à toa, sem pensar, de qualquer jeito. Só depois do sucesso destes testes é que a droga começa a ser testada em humanos.

Será que este sistema é eficiente? Pois bem, de acordo com os números deste artigo, com dados de 2007 a 2011, cerca de 36% das drogas falham nestes testes preclinicos. Das que tem sucesso, 94% irão falhar nos testes em humanos. Ora, isso significa que os testes com animais não servem para nada? Não é bem assim. O autor lembra que em 30 anos de estudos, não houve uma morte sequer na Fase I dos testes clínicos no Reino Unido, exceto uma vez em que 6 pessoas tiveram efeitos colaterais severos. Ou seja, o sistema efetivamente funciona, pois aqueles 36% poderiam ter causado sérios danos. Por sua vez, 86% dos testes que passaram pela Fase I falharam nas fases subsequentes de testes em humanos. Ninguém, nenhum ativista teria coragem de dizer que humanos não são bons modelos para testes, como o autor afirma.

Na sequência, então, vem a Fase 0. Ela pode não acontecer e cogita-se que seja uma forma de substituir os animais. Consiste em aplicar microdosagens da droga para se avaliar como ela se comporta no organismo e como o organismo responde à ela. O problema é que a forma como isso acontece em microdosagens nem sempre reflete o que acontece com doses efetivas. Por isso é pouco para substituir animais.

Na Fase I são chamados os voluntários saudáveis e administradas diferentes frações da dosagem que causou problemas nos testes em animais. São avaliadas a resposta que o organismo dá à droga e o que acontece com ela nos organismos. Primeiro se avalia uma dose única e depois múltiplas doses. Posteriormente se avalia a interação da absorção da droga com a alimentação. Vejam bem, foram os testes com animais que permitiram dizer até onde a dosagem em humanos poderia ser testada. Neste momento já existe uma certa segurança. Isto não seria possível sem os animais. Os testes resultariam em uma grande parcela de voluntários com sequelas graves ou óbitos.

A Fase II serve para determinar se a droga tem alguma função biológica nas dosagens seguras. Uma coisa é a droga matar células cancerígenas numa placa, outra é ela ser absorvida, chegar até os tecidos alvo e ter algum efeito na concentração máxima para minimizar os efeitos colaterais. Não vou entrar em detalhes sobre estes testes.

A Fase III utiliza um número maior de voluntários e serve para dizer se a nova droga serve para ser utilizada frente ao que se está utilizando para o mesmo tratamento atualmente. Em alguns casos este tratamento segue com estes voluntários, caso a resposta seja positiva, mesmo antes da droga ser liberada comercialmente. Passando por esta etapa, a droga pode ser liberada no mercado.

A Fase IV é de acompanhamento a longo prazo. A droga já está no mercado mas os testes continuam até que a total segurança do medicamento seja avaliada, com o acompanhamento de diversos casos de efeitos colaterais e etc. Lembram do caso do Vioxx, que foi retirado do mercado pouco depois do lançamento? Absolutamente normal, pois as fases iniciais de testes em humanos envolvem voluntários saudáveis, lembra?

Pode existir ainda a Fase V, da difusão do novo tratamento em saúde pública.

Bom, agora você já sabe como uma nova droga é liberada no mercado, após cerca de 10 a 15 anos e com milhões ou bilhões de dólares de investimento. A minha pergunta é: você realmente acha que a indústria farmacêutica manteria os testes com animais se eles fossem inúteis? Por que razão uma empresa manteria um passo custoso e desnecessário em sua cadeia produtiva? Mesmo que fosse barato, se é desnecessário está prendendo um produto que poderia estar gerando renda antes ao entrar antes no mercado. A luta por novos lançamentos é acirrada, não dá margem para uma perda de tempo inútil. Se mesmo assim você acha que manter os animais é um passo barato que pode ser mantido, vou tentar mostrar que não é bem assim.

Em primeiro lugar não se pode pegar qualquer animal para os testes. Em geral, se utiliza linhagens específicas de animais, com a menor variação genética possível. Os estudos de genética já demonstraram que as variações interindividuais podem ser cruciais na resposta de medicamentos, dietas e vários outros aspectos. Este é um dos motivos pelos quais escrevi acima que um ativista qualquer não pode ser utilizado no lugar do animal. Ele não foi produzido para isso, não foi preparado para isso. Para várias drogas, existem linhagens de camundongos transgênicas que possibilitam uma gama de respostas que jamais teríamos com cobaias humanas sem que precisássemos destruir inúmeras barreiras morais e éticas (como Mengele, por exemplo). Por isso não adianta se voluntariar ou dar a ideia de usar presos [sic] como cobaias. Nem vou entrar no mérito desta discussão.

Falam muito que os cientistas maus ficam maltratando e infringindo dor nos animais. Vocês podem não acreditar, mas existe um código de ética e existe legislação para isso. Além das normas internacionais, existe uma legislação nacional que impede maus tratos aos animais e exige que o sofrimento seja mínimo. Nos casos em que se necessita de vivissecção (abrir o animal ainda vivo, utilizado para avaliar o metabolismo de um órgão diretamente, por exemplo) ele deve ser sedado e eutanasiado sem despertar. Todos os procedimentos devem ser cuidadosos para evitar o sofrimento. Por sua vez, o sofrimento dos animais durante o processo de avaliação também não pode ser permitido, pois o estresse interfere nos resultados. Por conta disso os animais recebem dieta balanceada e climatização. São manipulados por poucas e sempre as mesmas pessoas para evitar estresse. São eutanasiados com métodos reconhecidos internacionalmente e diferenciados para cada grupo de espécies. Em geral, só podem participar de um único experimento, nos casos em que não é necessária a eutanásia. Você acha que tudo isso sai barato? Perto do valor total investido possivelmente sim. Mas algum megaempresário iria se contentar gastando mesmo que pouco com algo desnecessário? Se fosse o caso de se substituir por cultura de células, isso seria muito mais barato que cuidar de animais. Entretanto, espero ter conseguido explicar que um amontoado de células não substitui o metabolismo e a fisiologia de um organismo.

Uma prova de que não há maus tratos são os próprios videos feitos nesta ação de “libertação” (eu chamo ainda de furto) dos cães do Instituto Royal. Nos vídeos você percebe animais dóceis, com pelagem exuberante e bem alimentados. Muito, mas muito diferente do que se esperaria de animais sofrendo maus tratos. Olhe para os cães de rua, por exemplo.

Tudo isso atualmente é vigiado por uma comissão de ética. Nesta comissão de ética, vigiada por órgão governamental, participam ativistas, biólogos, veterinários e demais profissionais independentes, membros da comunidade local. Antes de se iniciar qualquer pesquisa é necessário que todo o procedimento seja descrito e avaliado. Se estiver havendo maus tratos em algum destes estabelecimentos (um tiro no pé de quem corre contra o relógio para liberar um produto no mercado), cabe a denúncia com provas. Repito: cabe a denúncia com provas.

Enfim, agora que você conseguiu ler até aqui, ainda acha que dentre as opções para banirmos o uso de animais, os testes de fármacos para combater doenças humanas (e animais) é uma delas? A primeira? É fácil falar para arrumar alternativas, mas, você tem alguma? Ótimo! Faça os testes e valide-a! Estamos todos esperando por isso. Incluindo a indústria farmacêutica, que poderá lançar seus produtos mais rapidamente no mercado e com menor custo. Então, com todos os antibióticos, analgésicos, antiinflamatórios, medicamentos contra diabetes, hipertensão, câncer, AIDS e muito mais presentes no mercado, você realmente acha que a vida dos animais utilizados nos experimentos foi em vão?

Me desculpe, mas ainda acho que a vida do cão de companhia é muito mais em vão. Quando muitos são jogados pelas ruas se faz necessário ter esta reflexão. Enquanto houver mercado, enquanto houver gente disposta a pagar, vai haver gente jogando animais na rua e isso sim é uma maldade. Por isso continuo acreditando que o primeiro passo a ser dado é acabar com o uso de animais por prazer do ser humano – desde o lazer como os rodeios, touradas, pesque-solte, até cães e gatos de companhia (imagine outros animais que sequer foram adequadamente domesticados) e aqueles utilizados para obter pele. Disso não precisamos mais. De cura para uma série de doenças, ainda precisamos. Se um dia esse limite for ultrapassado e conseguirmos prescindir do uso de animais para isso também, ótimo!

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