O eterno retorno dos criacionistas

É incrível como vez por outra os criacionistas retomam velhos argumentos que já foram rebatidos há muito tempo. Outro dia um texto meu foi criticado por um certo conhecido criacionista que nem vou citar, mas muitos já conhecem. Como os argumentos são sempre os mesmos, nem preciso citar.

Há muito tempo tenho debatido em fóruns de discussão por aí a fora com criacionistas de todas as espécies. Tem sempre desde aqueles mais ortodoxos, literalistas bíblicos, que apelam para um mal explicado criacionismo “científico” até os neocriacionistas adeptos do Arquiteto Inteligente. Já fiz refutações de textos utilizando o Projeto Evoluindo e já escrevi alguns ensaios de biologia evolutiva básica também, tanto em fóruns como no referido site.

Um dos argumentos utilizados pelos criacionistas é que os jargões são para iniciados, que os evolucionistas complicam para desviar o assunto ou mesmo para que os demais não entendam.  O fato é que evolução é e ao mesmo tempo não é algo tão simples de compreender. Até por isso, há alguns anos fiz um texto básico sobre a diferença entre a seleção natural e o acaso, coisas frequentemente confundidas pelos criacionistas. Muitos deles espalham aos quatro ventos que tal estrutura não poderia ter surgido ao acaso, esquecendo-se, de modo bastante conveniente, de que nenhum evolucionista afirma isso, e que o processo de seleção natural é quem “escolhe” quem fica e quem vai, e por isso é uma seleção. Seleção ao acaso simplesmente não existe. Além disso, a teoria evolutiva prevê que não há inteligência no agente selecionador.

É possível se obter ordem a partir do caos com simples pressões seletivas naturais. Para tentar explicar isso, no texto citado usei um exemplo simples extraído de um livro de Richard Dawkins, que trata da distribuição das pedras em uma praia de acordo com seu peso, em razão da força da maré. A maré age como uma pressão seletiva, selecionando pedras mais leves e as levando até as áreas superiores, deixando as pedras mais pesadas mais abaixo.

A tentativa de explicar de modo simples, para iniciantes e para as pessoas em geral que não têm conhecimentos mais aprofundados de biologia pode parecer simplória para quem tem mais conhecimento ou para quem realmente quer apenas perturbar. E, por incrível que pareça, esta foi uma reclamação. Se eu quisesse escrever para alunos de pós-graduação eu certamente utilizaria outro tipo abordagem.  E mais, se este nível está simples e compreendido, podemos passar para etapas mais avançadas, o que seria muito bom!

O problema é que mesmo o texto sendo simples, algumas pessoas não compreenderam. Disseram que se tivesse alguma coisa escrita nas pedras então sim, teria havido seleção comparável ao que alegamos ter na natureza. Oras, mas isso é o que eles querem ver. É um ponto de vista de alguém que quer uma finalidade que possa ser compreendido pelos próprios olhos, ou seja, quer um sinal de algo que não existe. O exemplo foi simples para explicar como a ordem pode surgir do caos por uma pressão seletiva simples – a força das ondas. A força das ondas não tem inteligência e, mesmo que tivesse, nada nos faria supor que esta inteligência determinaria que as ondas escrevessem algo inteligível (e, afinal, em que língua as ondas deveriam escrever?). Exigir esta mensagem é definir uma finalidade para um processo que é cego.

Assim, até seria possível haver algo como uma letra ou uma palavra escrita em pedrinhas na praia, desde que houvesse uma pressão seletiva para isso. É que poderíamos esperar de uma evolução que fosse dirigida por um ser superior, como muitos criacionistas moderados aceitam. Dentro deste modelo dirigido, esperaríamos encontrar na praia palavras belas em português, talvez até poemas. Entretanto, o que vemos na natureza são garranchos e palavras mal escritas. Erros de “digitação” por problemas de restrição do desenvolvimento e muitos outros detalhes complexos que explicam como a evolução age. Nem mesmo um arquiteto inteligente passa pelo crivo das evidências, desde moleculares até macroscópicas, de um processo evolutivo de aproveitamento de sobras, recrutamento de partes, duplicações e muito mais.

Podemos começar a discutir evolução neste nível, mas apenas depois que os criacionistas compreenderem o que os evolucionistas dizem quando estão falando sobre acaso e sobre seleção natural. Enquanto isso, melhor ler e reler o texto mais simples mesmo. Mas isso não vai resolver e logo logo, eles retornarão com as mesmas balelas.

 

 

3 thoughts on “O eterno retorno dos criacionistas

  1. José de Senna disse:

    Compreendo. Vou seguir a sua dica e procurar livros evolucionistas que falam a respeito da chamada macroevolução e assim e formar uma opinião mais abrangente sobre o assunto. Obrigado pela resposta. Abraços!

  2. José de Senna disse:

    Sou cristão e criacionista. Já procurei mesclar o conhecimento sobre evolução com os ensinamentos bíblicos, como tantos outros tentam fazer, mas após aprender um pouco mais sobre o criacionismo e o que ele defende (além de adquirir um conhecimento mais aprofundado sobre a própria Bíblia) abandonei esse “meio termo” e assumi posição de criacionista convicto. Mas deixemos esses detalhes de lado, e vamos ao que realmente importa.

    Gostei do seu texto. Ele resume perfeitamente tudo o que aprendi sobre evolução na escola e o que tenho lido a respeito: a seleção natural, que nada mais do que do que o resultado das interações dos indivíduos com o meio em que vivem e com os indivíduos entre si, se encarrega de “selecionar” aqueles mais aptos a resistirem as condições do ambiente e transmitir suas características para as gerações futuras.

    Concordo com tudo isso, pois além de vidente na natureza é passível de experimentação em laboratório, de modo que qualquer um com um mínimo de conhecimento a respeito e um pouco de honestidade intelectual não poderá negar. No entanto, discordo quando você afirma que os criacionistas não tem conhecimento disso e/ou ignoram esse fato como única saída para defender e sustentar sua tese. Li inúmeros textos criacionistas que assumem a ocorrência desse tipo de evolução, porém com a ressalva de chamá-la de microevolução, que nada mais do que pequenas mudanças individuais que tornam o ser mais apto a resistir as pressões do meio em que vive e que podem ou não ser transmitidas as gerações futuras.

    Ora, a microevolução explica o surgimento de superbactérias resistentes a antibióticos, o surgimento de pragas capazes de resistir a pesticidas, o aumento na população de mariposas que podem se camuflar dos predadores (em detrimento daquelas que não podem), a grande variabilidade genética da espécie humana e até mesmo as doenças genéticas conhecidas, visto que nem toda evolução é para melhor.

    Porém, ainda não explica os mecanismos naturais que levaram um unicelular primordial a se tornar um ser pluricelular, não explica o aparecimento das chamadas complexidades irredutíveis, entre outros. É o que chamamos de macroevolução, não observável, não experimental, e, portanto, apenas teórica. Que o diga os experimentos com a mosca da fruta, que, apesar de toda a inteligência, boa vontade e dedicação dos cientistas envolvidos, ainda não resultou na criação de uma nova espécie.

    Enfim. Vi você acusar os criacionistas de não compreenderem aspectos básicos da teoria evolutiva, mas me pareceu que também você não conhece alguns aspectos básicos da cosmovisão criacionista.

    1. rpazza disse:

      Prezado José, muito obrigado pelos comentários.

      O problema está justamente no “é o que chamamos de macroevolução”. Quem chama “aparecimento das chamadas complexidades irredutíveis” de macroevolução? São biólogos evolutivos ou são criacionistas? Você não encontra nada acerca das tais complexidades irredutíveis em bons livros de biologia e de evolução, pelo simples fato de que os biólogos não classificam nada desta forma. Não vemos na natureza tais complexidades irredutíveis. Há inúmeros artigos refutando esta falsa noção dos criacionistas do Desenho Inteligente sobre isso.

      Por outro lado, o que está nos aspectos básicos da biologia evolutiva é que a divisão entre macro e microevolução é limítrofe e muitas vezes desnecessária, pois o que temos visto é que a macroevolução nada mais é do que o acúmulo de microevolução. Também é necessário verificar em livros de evolução, e não em artigos criacionistas, o que entende-se (de verdade) sobre macroevolução.

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