Diferenças de gênero e suas implicações

Vou fazer um parênteses na minha série de postagens sobre os Astyanax para comentar um  pouco sobre a celeuma que foi criada (e que sempre acontece em casos assim) devido à diferenciação que o Kinder Ovo está fazendo nesta páscoa. Agora há diferentes ovos com surpresas distintas para meninos e meninas. E a comunidade da defesa do igualitarismo (posso chamar assim?) saiu em protesto.

Será que é justificada tanta crítica? Eu gostaria de fazer uma rápida análise.

Em primeiro lugar, reconheço o país machista e sexista em que vivemos. Não tenho dúvidas disso. Também não tenho dúvidas de que haja discriminação em vários sentidos, entre eles em relação a homossexuais, por exemplo. Vou iniciar a discussão retomando a questão dos homossexuais, até porque, os grupos que costumam criticar as ações sexistas também estão profundamente ligadas aos direitos LGBT, o que é de se esperar e não é questionável.

Todos devem lembrar da resposta do biólogo geneticista Eli Vieira ao pastor Silas Malafaia. Inclusive, esta ação gerou um pronunciamento da Sociedade Brasileira de Genética. O que podemos extrair desta discussão é que tanto o sexo gonadal (masculino ou feminino) quanto à afetividade (homoafetivo ou heteroafetivo) ou a sexualidade (sentir-se do sexo masculino ou feminino) podem ser desencadeados por fatores biológicos. Sabemos que isto é muito mais efetivo em relação ao sexo gonadal do que em relação à sexualidade, por razões que são óbvias – o sexo gonadal é uma alteração física e hormonal do organismo. Está relacionado com alterações nos órgãos genitais, na produção de gametas e de hormônios que vão promover a diferenciação das características sexuais secundárias (barbas, mamas, etc). Por outro lado, a afetividade e a sexualidade são muito mais complexas, pois não existem mudanças morfológicas facilmente detectáveis, e isso muitas vezes é o que faz com que poucas pessoas comuns aceitem que estas possam ser uma característica biológica. No máximo consideram uma aberração, uma doença. O conceito de doença é absurdamente complexo, mas pode ser definido como uma disfunção, um problema para o organismo.

O que Eli Vieira deixou claro em seu vídeo é que existe variação na natureza. Aliás, Darwin falou muito disso. O que imaginarmos que é uma característica vamos encontrar variação na natureza, muito provavelmente. Em humanos podemos destacar o óbvio da variação no tom de pele, da cor dos cabelos, da cor dos olhos, da altura, etc. No que se refere ao tópico em questão, há variação no tamanho do pênis, na lubrificação da vagina, na produção de hormônios. E na maioria dos casos nenhuma destas variações é considerada aberração ou doença. Se esta variação não causa uma disfunção, ou não é um problema para o indivíduo, não é uma doença. Enfim, também é esperado que haja variação no comportamento, como é observado em todos os animais para várias características comportamentais distintas.

Há uma crítica muito grande por parte de alguns religiosos fundamentalistas, que afirma que o comportamento homoafetivo é não-natural, ou seja, é aprendido. Eu já alertei quando resenhei o livro “O que nos faz humanos” de Matt Ridley que assumir que comportamento sé exclusivamente fruto de aprendizado é extremamente perigoso, pois pode oferecer a indivíduos inescrupulosos a ideia de que o ser humano pode ser moldado à maneira que lhes interessar. Os métodos nazistas e fascistas são bons exemplos de doutrinação assim. Entretanto, isso é outro assunto.

O problema é que existem evidências de bases genéticas para o comportamento. Inclusive o humano. Na verdade, há muito tempo existem publicações relacionando diferenças no desenvolvimento de áreas distintas do cérebro – ocasionadas pelos mesmos hormônios que fazem determinação sexual – e comportamento homoafetivo ou mesmo transexualidade. Em outras palavras, cada vez mais temos evidências de cérebros masculinos e femininos e que não necessariamente estão ligados a órgãos sexuais masculinos e femininos.

Ótimo, mas onde é que quero chegar, se o mote do tópico era falar sobre o Kinder Ovo? Como expliquei no início, a grande celeuma normalmente se dá com grupos como os que defendem a igualdade de gênero e os interesses LGBT. Mais uma vez, sou perfeitamente solidário a este movimento, mas aqui estão cometendo um equívoco. Ao mesmo tempo em que estão demonstrando que a homoafetividade e a transexualidade tem bases biológicas, estão querendo esquecer estas bases biológicas em questões como estas.

Há vários anos pesquisadores vêm estudando o que faz com que meninos e meninas busquem por brinquedos diferentes. Há muito tempo isto é evidenciado com experimentos (desde escolha de brinquedos por crianças de ambos os sexos em diferentes idades até cartinhas ao papai Noel). Alguns pesquisadores argumentaram que esta diferença estaria relacionada com a desigualdade no tratamento dado a homens e mulheres da sociedade em que o experimento era feito. Pois bem, um pesquisador sueco repetiu o experimento na Suécia, um dos países mais igualitários do mundo. E o resultado foi o mesmo. Meninos têm preferências diferentes de brinquedos em relação às meninas. Ou seja, mesmo se as crianças vivessem em ambientes totalmente igualitários, muito provavelmente meninos ainda escolheriam figuras de ação e meninas escolheriam bonecas.

O mercado não é burro. Há gente pesquisando essas coisas. Quando se entra numa loja de roupas é possível ver uma distinção clara do setor masculino e feminino. Quanto tempo é poupado ao consumidor que segue diretamente no setor masculino onde estão as calças quando é isso que ele quer comprar? É uma questão de organização. Na loja de brinquedos, figuras de ação estão em uma prateleira, bonecas em outra para facilitar, pois é isso que as crianças vão procurar. No entanto, ninguém impede que uma menina vá passear no setor de carrinhos e figuras de ação (a não ser pais machistas).

Bom, chega de ciência, vamos para uma evidência anedota. Eu tenho uma filha. Nunca, em hipótese alguma falamos para ela que tal brinquedo é de menino e tal é de menina. Aliás, ela já ganhou carrinhos, mas em geral não é isso que ela pede de natal. De vez em quando ela vem com histórias sexistas da escola, mas tratamos de quebrar logo no início.

Assim, o que o Kinder Ovo está fazendo nada mais é do que auxiliar para que as crianças tenham suas surpresas mais de acordo com suas necessidades e suas vontades. Não vejo problemas nisso e continuo achando que nosso país (entre outros) é extremamente machista e nada igualitário. E continuo apoiando ações que visem promover a igualdade de gêneros. A questão é que não podemos lutar contra a biologia. E o mercado sempre vai saber disso. Apenas não acho, e não é o que as pesquisas dizem, que colocar todos os brinquedos na mesma prateleira vá mudar as preferências biológicas das crianças. Se por um lado é necessário compreender que as preferências biológicas nem sempre fazem com que homens gostem de mulher e vice-versa, precisamos compreender que as preferências biológicas também atuam neste sentido.

A luta pela igualdade deve continuar, mas deve se focar em questões mais palpáveis – a capacidade da racionalidade humana, por maior variação que exista, não podemos abandoná-la. Alguém pode argumentar que é necessário obrigar as pessoas a não serem sexistas através de legislação ou seja lá o que for. Eu penso que devemos fazer isso através da educação do povo. É mais lento, mas menos traumático e não gera o desconforto da obrigação de obedecer por obedecer.

Algumas referências:

Gender stereotyping in infancy: Visual preferences for and knowledge of gender-stereotyped toys in the second year

Children’s Toy Collections in Sweden—A Less Gender-Typed Country?

A Sex Difference in the Human Brain and its Relation to Transsexuality.

Gender-linked Differences in the Toys, Television Shows, Computer Games, and Outdoor Activities of 5- to 13-year-old Children

Male-to-Female Transsexuals Have Female Neuron Numbers in a Limbic Nucleus

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