Da analogia imperfeita às distorções

Este texto foi publicado no Observatório da Imprensa, em 19/09/2006 na edição 399.

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“A mim ensinou-me tudo” (Fernando Pessoa); “Papai vai lhe ninar” (Dorival Caymmi); “Você foste ou não foste?”(Chico Buarque). Os trechos citados contêm erros de português propositais, melhorando a sonoridade dos textos e a clareza das idéias dos autores. No entanto, tais erros propositais são considerados “licenças poéticas”, não erros, e são bastante utilizados em poesias e músicas. Tais erros, embora firam a norma culta, não dificultam a compreensão do texto, pelo contrário: em muitos casos facilitam sua compreensão. É fato que atualmente é complicado identificar o que é licença poética e o que é falta de cultura e desconhecimento da língua portuguesa, como observado em letras de várias músicas da moda.

Utilizando este artifício, podemos identificar na literatura de divulgação científica muitas “licenças científicas”. Explicar como a ciência funciona a leigos realmente não é tarefa fácil. É comum que cientistas divulgadores se utilizem de analogias imperfeitas para demonstrar o que querem explicar, como Richard Dawkins costuma fazer muito bem, especialmente em sua analogia dos genes com uma biblioteca vasta em volumes (em O gene egoísta). Na maioria destes casos, as analogias e outras licenças científicas são muito produtivas em sua finalidade. No entanto, seria interessante uma discussão sobre outros tipos de licenças científicas. Há um constante uso de termos que, embora pareçam facilitar o entendimento da população em geral, podem confundir ainda mais, especialmente quando tais pessoas buscam mais esclarecimentos sobre o assunto. Em outros casos, os termos utilizados nos textos fazem alusão a situações que distorcem completamente o sentido da notícia científica.

Podemos analisar alguns exemplos. O estudo do genoma mitocondrial de populações humanas ao redor do mundo permitiu estimar o ancestral comum mais recente entre a maioria dos humanos viventes. Os cientistas, por algum motivo, a chamaram de “Eva mitocondrial”. Não demorou muito para que religiosos usassem a notícia como prova científica da existência da Eva bíblica. Ou seja, a tentativa de popularizar uma notícia científica com uma licença científica, uma vez que não há nenhuma evidência de que tal ancestral comum realmente seja a Eva bíblica, serviu como arma contra a própria ciência.

Erro de código

Certamente discussões de bastidores subseqüentes podem ter esclarecido a questão; no entanto, para uma pessoa que está alheia aos bastidores da discussão científica, a Eva mitocondrial pode muito bem ser a Eva bíblica. Um analogia bíblica também foi feita em relação ao fato de uma determinada espécie que antes era considerada extinta ser encontrada com vida na natureza – efeito Lázaro. Embora menos polêmica em relação à questão religião/ciência, este termo amplamente empregado inclusive em meios acadêmicos é equivocado, pois não encontrar uma determinada espécie na natureza não significa que ela não exista. O efeito realmente foi o de uma melhoria nas verbas que permitiram ampliar os estudos.

Para o público em geral, tal termo pode induzir à idéia de que a espécie estava extinta e, de repente, voltou a aparecer ou tenha sido recriada. É claro que se pode dizer que o Lázaro citado na Bíblia poderia não estar morto, mas aparentemente morto, como as espécies que poderiam estar aparentemente extintas. Infelizmente, este não é o pensamento da grande maioria da população ocidental, o que certamente gera confusão. A “licença científica” normalmente não explica, apenas confunde. Ainda, na paleontologia, temos a freqüente expressão “fóssil vivo”. Como pode existir um fóssil vivo?

Outra expressão que freqüentemente aparece no noticiário é que os “cientistas descobriram o código genético” de determinada espécie. Na realidade, o que eles queriam dizer é que os cientistas descobriram a seqüência de nucleotídeos do DNA de uma espécie. Por mais difícil que possa ser dar uma notícia como esta, a expressão “código genético” jamais deveria ser empregada. O código genético é um mecanismo, um tipo de dicionário (usando licença científica), que informa de que maneira uma seqüência de nucleotídeos de uma molécula de RNA determina a seqüência de aminoácidos da proteína que ele produz. Por acaso alguém diz que, na interceptação de uma mensagem de Cuba pelo governo norte-americano, por exemplo, “os norte-americanos identificaram o código Morse que vinha de Cuba”?

Engajamento e preparo

A genética é uma área cheia de licenças científicas como esta, talvez por ser uma área de difícil compreensão por sua complexidade. Um outro exemplo comum é encontrar o termo “carga genética” aplicado como sinônimo de genoma. Carga genética é uma medida dos alelos deletérios para o organismo, que significa literalmente uma carga, um peso, algo que um organismo pode suportar até certo ponto. Genoma é um termo mais adequado para se referir ao conteúdo genético de um organismo. É um termo bastante conhecido, não há motivos para não utilizá-lo.

Enquanto estas licenças científicas vão aumentando em variação e quantidade na mídia em geral, a população em geral pode ser prejudicada. Certamente, em muitos casos a pessoa não está interessada em se o termo é certo ou nem quer ter mais informações sobre um assunto. Basta este mínimo de informação. Entretanto, um número menor de pessoas pode estar interessado. Como o objetivo do jornalismo é o de levar a informação, é esperado que este papel seja desempenhado com o máximo de acuidade. As pessoas respeitam o que lêem ou ouvem no noticiário. A mídia é formadora de opinião. Como podemos pensar em um debate sério na sociedade sobre assuntos polêmicos, como o uso terapêutico de células-tronco, por exemplo, se as pessoas em geral desconhecem ou confundem o assunto?

O que precisamos é de cientistas mais engajados na divulgação científica e jornalistas mais bem preparados. Certamente a linguagem dos textos de divulgação científica deve atingir todas as camadas populacionais, mas é preciso ter muito cuidado em não vulgarizar, não deturpar o fato científico. Mais do que isso, a divulgação científica deve instigar a pessoa a buscar mais, aprender mais, conhecer mais. Um excesso de vulgarização leva à conformação com o material pronto, útil muitas vezes mas que, definitivamente, não instiga o leitor.

 

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