A clorofila e o arquiteto inteligente

Mais um texto saído direto do túnel do tempo. Publicado originalmente no Projeto Evoluindo, em 2004. O que é mais parcimonioso? Que processos evolutivos que utilizam as peças disponíveis dentro de uma variação populacional, selecionando o que se mostra mais eficiente e eliminando os menos adequados, deixando resquícios verificáveis na história molecular dos organismos, ou um arquiteto inteligente capaz de criar tudo de um modo “meia-boca”?

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A bioquímica tem sido a área predileta dos defensores do projeto inteligente, o ID. Interessantemente, dentro da bioquímica podemos encontrar vários exemplos que depõem contra os argumentos freqüentemente utilizados na defesa deste pensamento.

Um destes exemplos é brilhantemente exposto pela clorofila. A clorofila é uma molécula muito semelhante à nossa hemoglobina. Ela é encontrada em todas as espécies vegetais, de algas até sequóias, e em alguns não-vegetais, como as bactérias verde-azuladas, sendo responsável pela coloração verde das mesmas. A função principal da clorofila é absorver fótons da luz emitida pelo Sol participando assim de uma cadeia de transporte de elétrons que culmina na hidrólise de moléculas de água e na produção de ATP, necessário para a fase escura da fotossíntese onde os carboidratos são sintetizados a partir do gás carbônico.

Mas a clorofila não é responsável pela cor verde das folhas e das algas? Sim. Isto significa que ela reflete as cores amarelo e verde do espectro, absorvendo apenas o vermelho e o violeta. O detalhe é que o Sol emite mais luz amarelo e verde do que vermelho e violeta.

Interessantemente, a molécula mais amplamente difundida no reino vegetal rejeita as cores que permitiriam um melhor aproveitamento da energia vinda do Sol.

Com um melhor aproveitamento desta energia, mais carboidratos poderiam ser armazenados. Desta forma, indivíduos portadores de variações onde outros tipos de pigmentos capazes de absorver os raios verde e amarelo poderiam ter mais vantagem em relação aos pobres portadores de clorofila. Existiriam estes pigmentos na natureza? Claro que sim.

Caroteno e ficobilina são exemplos destes pigmentos e são presentes em muitos vegetais, desde algas.

Ora, se as plantas podem ter outros pigmentos mais eficientes na captação da luz do Sol, por que elas ainda são verdes? Porque simplesmente a clorofila não foi eliminada da jogada. E por que não seria? Não seria mais vantajoso para as plantas que elas tivessem cada vez mais pigmentos que absorvessem a luz do comprimento de onda que o Sol mais emana? Certamente que sim. Isso se não fosse necessário que estes pigmentos transferissem os elétrons captados para a clorofila e de lá seguissem seu curso normal.

Ou seja: onde está a arquitetura inteligente em se fazer necessário manter uma estrutura arcaica quando o novo pigmento poderia desempenhar sua função? A clorofila faz parte da “complexidade irredutível”? Mas a clorofila seria descartável se os carotenóides ou ficobilinas pudessem por si mesmos, passar os elétrons excedentes (gerados pela absorção do fóton) para o passo seguinte na cadeia de transporte. Será que não acontece nada semelhante na natureza?

Durante a passagem da luz em mais de 10 metros de água, toda luz azul verde é absorvida. O que restaria para a clorofila de algas que vivem há mais de 10 metros de profundidade? Estas algas precisaram de novos pigmentos capazes de absorver luz de outros comprimentos de onda. Nelas são encontrados a ficoeritrobilina e a ficocianobilina. Assim, estas algas podem fazer sua fotossíntese sem necessidade de clorofila.

Outro caminho tomado por plantas desprovidas de clorofila é o do heterotrofismo, podendo ser sugadoras ou saprófitas.

Certamente, para um melhor desempenho, uma engenharia inteligente desenvolveria pigmentos capazes de aproveitar melhor a luz do Sol na fotossíntese, eliminando o intermediário (clorofila) e economizando a energia gasta para a síntese de pigmentos extras.

Referências Bibliográficas

Campbell, N. A.; Reece, J. B.; Mitchell, L. G. (1999). Biology. 5th Edition, Benjaming Cummings, New York, 1175pp.

Voet, D; Voet, J. G. (1995) Biochemistry. 2nd Edition. John Wiley and Sons, New York, 1360pp.

Willis, K. J.; McElwain, J. C. (2002). The Evolution of Plants. Oxford University Press, 378pp.

3 thoughts on “A clorofila e o arquiteto inteligente

  1. André Baptista ha detto:

    Não seria mais eficiente ainda se absorvesse todas as cores do espectro? Sendo preta, portanto.

    1. Rubens Pazza ha detto:

      Possivelmente. Principalmente se não tivesse um intermediário para perder parte da energia.

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