Estamos preparados para o Fair Trade?

As relações de consumo no Brasil ainda estão se ajustando à opções do mercado contendo ingredientes mais saudáveis ou até mesmo “orgânicos”. Não sou entusiasta dos alimentos ditos orgânicos pois há questões técnicas, mercadológicas e de marketing que precisam ser melhor discutidas, mas tendo em vista que no Brasil se utiliza muito mais agrotóxicos que o recomendado, não dá pra deixá-los de lado. É bem verdade que se você sai dos grandes centros a disponibilidade de produtos mais saudáveis diminui, embora seja possível comprar direto de produtores locais que você conhece e confia, tendo eles selos “orgânicos” ou não.

O fato é que na Europa a disponibilidade de uma ampla variedade de produtos vai muito além daqueles que fazem bem à saúde de quem compra e consome. Eles já passaram por isso há muito tempo. A preocupação hoje é em comprar produtos que tenham boas práticas em sua produção. Produtos em que os produtores primários são adequadamente remunerados, por exemplo. Produtos em que a segurança dos trabalhadores é levada em consideração, que eles tenham qualidade de vida e apoio social na empresa. Produtos que tenham um mínimo de sustentabilidade, evitando ou minimizando impacto ambiental. Empresas que não contratem crianças para o trabalho, que não tenham trabalho escravo, que os trabalhadores tenham seus direitos respeitados. Esse conjunto de ações são chamadas de Fair Trade. Para garantir essas condições humanas de produção, existem selos de certificação. Assim, você pode ir ao supermercado e escolher entre um produto que tenha a certificação de Fair Trade ou outro que não tenha.

Hoje chegou um email da escola da nossa filha mais velha. Eles estão participando de uma ação chamada 90k Rice Chalenge, uma espécie de competição para vender 90 kg de arroz. A venda dessa quantidade permite a produtores de arroz vinculados à FairTrade Foundation no Malawi enviar suas crianças ao Ensino Médio por um ano. A escola tem várias iniciativas sociais como esta.

Enfim, devemos lembrar que boa parte do PIB do Brasil é decorrente da exportação de produtos agrícolas para vários países, entre eles países europeus. Com as medidas que desmontaram as leis trabalhistas, a flexibilização do trabalho escravo e infantil, bem como as propostas de alteração na previdência que esse governo está tomando, será que não teremos um efeito negativo nas exportações a longo prazo? Essas ações estão na contra-mão dos desejos do mercado internacional. Se acreditamos que o mercado é que deve se auto regular, não deveríamos estar fazendo exatamente o oposto? Criar cada vez mais condições de obter certificação Fair Trade para competir com outros países nesse mercado crescente?

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