Genes, evolução e desenvolvimento

Este é o segundo texto em resposta a cartas enviadas ao Jornal da Ciência Email em defesa do Design Inteligente. O original foi publicado no dia 13 de maio de 2005. Neste texto eu abordo algumas questões acerca da evolução utilizando genes do desenvolvimento como evidência, em resposta aos frequentes espantalhos escritos por criacionistas e neocriacionistas.

Como membro da Sociedade Brasileira de Genética gostaria de parabenizar a diretoria por pronunciar-se em relação ao debate criacionismo x evolução.O posicionamento defendido pela diretoria serve de exemplo para todas as sociedades científicas brasileiras, que devem cumprir um papel social na tentativa de impedir que movimentos pseudocientíficos e anticientíficos espalhem-se na população. O Sr. Enézio de Almeida em seu artigo publicado no dia 11 de Maio no JC e-mail levanta alguns pontos interessantes para um debate, e ao mesmo tempo segue na mesma linha ‘argumentativa’ dos movimentos pseudocientíficos antievolucionismo. Eu gostaria, então, de tentar discutir alguns pontos.

Em primeiro lugar, a classificação dos genes conforme o texto não segue um padrão convencional. Há genes de manutenção, que são ativos em praticamente todas as células de um organismo eucariótico, e há genes preferencialmente ativos em determinados tecidos ou épocas da vida de um organismo.Alguns genes codificantes de proteínas do metabolismo, por exemplo, não necessariamente são genes de manutenção. Em algumas etnias (preferencialmente), por exemplo, sabe-se que a lactase é presente apenas na infância, tornando algumas pessoas intolerantes à lactose quando mais velhos. Entretanto, esta não é essencialmente a principal questão do texto.

É interessante que o autor tenha se focalizado nos genes do desenvolvimento. Ao contrário do pressuposto pelo texto, os genes do desenvolvimento têm sido cada vez mais bem estudados e os resultados de tais estudos estão disponíveis em revistas como Nature, PNAS, Cell, Developmental Biology, entre outras. Em 1996, Holland e Garcia-Fernandez publicaram uma revisão no periódico Developmental Biology sobre os genes Hox e a evolução dos cordados. Estes genes são particularmente interessantes para estudos do desenvolvimento. Um pouco mais recentemente, em 2001, William R. Jeffery publicou uma revisão sobre o uso de um peixe de caverna do gênero Astyanax como modelo de estudo para biologia evolutiva do desenvolvimento.

Segundo os estudos nesta área, os organismos desenvolveram diferentes mecanismos para gerar novidade no desenvolvimento, utilizando um mesmo conjunto inicial de genes, como duplicações ou mudanças na expressão gênica.É muito interessante como, depois de um período de descrédito, a biologia do desenvolvimento tem fornecido suportes tão fortes para a biologia evolutiva que estamos prestes a ter uma nova síntese evolutiva. Além disso, especiação não requer mudanças drásticas no plano corporal de um organismo.

Macroevolução, em geral, se refere à origem de espécies novas (embora o uso dos termos micro e macroevolução não sejam amplamente aceitos, e como outros conceitos em biologia evolutiva são meramente arbitrários, uma vez que os organismos vivos não seguem delimitações filosóficas cunhadas por cientistas). Não necessariamente indica que há grandes modificações entre uma espécie antiga e sua descendente. Exemplos de especiação são claros entre peixes, invertebrados e, principalmente, entre plantas, além de outros organismos. Espécies em anel, como a salamandra Ensatina, são maravilhosos exemplos de especiação em tempo real. A questão principal é que a evolução é um processo algorítmico, onde uma determinada mudança (mutação) pode ser relevante para novas mudanças. A seleção natural, bem como outros processos evolutivos, permite que algumas variações sejam favorecidas enquanto outras não. Determinados genes têm taxas de mutação diferentes de outros e isso faz com que alguns grupos tenham taxas de evolução diferentes de outros.

Quando se fala em evolução (talvez no sentido que os criacionistas acham que é macroevolução), é necessário compreender que as diferenças entre peixes e anfíbios não eram tão grandes quando o primeiro ancestral de tetrápodo saiu da água (e ainda não é tão grande se lembrarmos que alguns genes do desenvolvimento, como o gene Dashound que promove pernas curtas em cães está presente nos peixes, que não têm pernas). Em outras palavras, não é coerente olhar para uma grande árvore frondosa e dizer que é impossível que um grande e diversificado galho tenha relação com outro igualmente desenvolvido. É preciso lembrar que ambos vieram da mesma semente e que no início não passavam de dois cotilédones, partindo de um mesmo eixo.

O texto afirma que nenhum biólogo evolutivo propôs ‘termos teóricos aceitáveis’ para a evolução de olho e asas, por exemplo. Tudo depende do que eles chamam de termos aceitáveis. Há exemplos claros na natureza que demonstram como uma asa pode ter surgido, mas isso não parece ser ‘aceitável’ pelos criacionistas. Também não deve ser ‘aceitável’ a estimativa do tempo necessário para que um olho tipo câmara evolua, que Nilsson e Pelger publicaram em 1994 no periódico Proceedings of the Royal Society of London. O problema é que simplesmente dizer que não é aceitável pelos criacionistas não torna um trabalho científico inválido. Nenhuma teoria será derrubada por argumentos do tipo: ‘não concordo’. É necessário que se mostre evidências independentes, que tornem a hipótese incorreta. É assim que se faz ciência. Ao contrário do que os antievolucionistas afirmam, quanto mais se expõem os fatos, mais sólida se torna a teoria evolutiva.

Deixando de lado os vieses interpretativos que o texto traz com citações de alguns autores evolucionistas, é necessário fazer algumas perguntas. O criacionismo ‘científico’ e o neocriacionismo (o movimento do Design Inteligente), estão baseados em que evidências? Ao que parece, a única argumentação destes movimentos é que a evolução não pode existir, mas não vemos nenhuma evidência contrária! Onde estão os fósseis de coelho do pré-Cambriano? Ou por que não há nenhum Pégasus vivente nem fóssil? Por que é que todas as evidências apontam para um caminho evolutivo? É estranho afirmarem que rejeitam ‘as teses que não se sustentam pelas evidências’, uma vez que as evidências apontam para um caminho evolutivo. É isso que os artigos das revistas científicas apontam: evidências e mais evidências de evolução. A teoria evolutiva está longe, mas muito longe de ser uma teoria em crise, como afirmam.

Ao contrário do que afirmam, o movimento do Design Inteligente e o criacionismo ‘científico’, só observam as evidências que lhes convém, sempre utilizando um viés interpretativo para ajustar as evidências à sua teoria. Isto, definitivamente, não é ciência. Por estas e outra razões, apoio completamente a Sociedade Brasileira de Genética. Nenhum modelo criacionista é uma alternativa à teoria evolutiva, uma vez que Evolução é uma ciência.

Além disso, que modelo criacionista estaria correto? Por que o modelo cristão deve ser levado em consideração ao invés do modelo grego ou chinês? Mitos de criação existem aos milhares e todos eles refletem os conhecimentos da época, a noção de mundo de cada povo. Hoje temos ferramentas para verificar certas afirmações. A ciência não explicou tudo ainda, e é uma bobagem pensar que já deveria. Certamente muita coisa precisa ser estudada, mas nada indica que o modelo evolutivo até então observado na natureza seja diferente. Mesmo se for, os criacionistas e neocriacionistas não têm evidências para demonstrar que suas mitologias são verdadeiras.

Uma criação complexa depende de um criador ainda mais complexo, que deveria ser criado por um criador ainda mais complexo e assim por diante.Aguardemos, então, as evidências de tal criador, tenha ele diploma de arquiteto ou não. Lembrando que imensos telescópios têm varrido nosso universo com raios ultravioleta, rádio e luz visível… Até agora nada.

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