Príons podem estar envolvidos em processos evolutivos

Dando continuidade a este blog, que às vezes parece que vai ser semestral, vou comentar sobre algo que encontrei meio sem querer. Em fevereiro saiu um artigo na revista The Scientist comentando sobre o papel de príons no processo da evolução biológica. Até aí tudo bem, mas o comentário dos criacionistas…

O estudo publicado na revista Nature pela equipe da pesquisadora Susan Lindquist levanta a questão de como príons podem atuar no processo evolutivo em leveduras.

Vamos por partes. Príons são proteínas que possuem a mesma sequencia de aminoácidos (ou seja, codificada pela mesma sequência de DNA de uma proteína normal) mas que durante seu enovelamento sofreu alterações na sua estrutura tridimensional e passou a não desempenhar sua função normal. Normalmente, estas proteínas que sofrem problemas no enovelamento são direcionadas para a degradação, mas isso não acontece com príons. Entre os problemas que príons podem causar está o bastante divulgado “mal da vaca louca”.

Leveduras são fungos unicelulares cujos representantes mais estudados e conhecidos são aqueles do gênero Saccharomyces, muito conhecidos por serem responsáveis pela cerveja, pão, etc.

Os pesquisadores observaram a síntese de uma proteína, a Sup35. Normalmente é uma proteína envolvida na síntese de proteínas pelos ribossomos, auxiliando na exatidão do processo de leitura que garante que a proteína sintetizada é decorrente de uma determinada informação que chegou aos ribossomos pelo RNA mensageiro. Quando esta proteína torna-se um príon, ela não cumpre esta função, e proteínas são então produzidas sem este controle. O resultado é a síntese de diferentes tipos de proteína com ou sem função definida e muitas vezes diferente do que o DNA está sugerindo. Mais do que isso, estas diferentes proteínas são produzidas sem qualquer alteração no DNA.

Em 2004, a equipe de Susan Lindquist observou este comportamento em laboratório e os críticos disseram que se tratava de doença príonica de laboratório. Agora, ela e seus colaboradores observaram o fato em 255 de 700 linhagens selvagens de Saccharomyces que foram analisadas.

O que os pesquisadores fizeram foi colocar as linhagens para crescer em um ambiente inóspito. Observaram apenas aqueles que conseguiram sucesso e adicionaram um produto químico que destrói príons. O resultado foi que muitas colônias (grupos de células originárias de um ou poucos indivíduos iniciais) que inicialmente estavam se dando bem, definharam. Ou seja, eram os príons que estavam garantindo sua sobrevivência.

Pode-se deduzir que os príons promoveram uma variação que foi selecionada por permitir a sobrevivência e reprodução no ambiente inóspito, o que pode expandir as oportunidades adaptativas da espécie. Até aí, tudo bem. Alguém vê algum problema da teoria evolutiva com este achado? O autor da notícia no periódico The Scientist chamou de “novo estilo de evolução” e ao que parece, isso causou alvoroço entre os criacionistas (eles nunca precisam de muito, mesmo). Um deles chega a dizer que cada vez mais nos distanciamos do trabalho de Darwin…

Mas desde quando isso é um “novo estilo de evolução”, em primeiro lugar? Ao que parece, não passa de um mecanismo de sobrevivência encontrado em algumas leveduras. Esta variação causada pelos príons se mostrou benéfica apenas nos ambiente controlados, inóspitos para as demais linhagens. Será que isso teve algum papel durante a evolução dos microorganismos? É possível que sim, mas, de alguma forma, o que vemos atualmente são adaptações que ficaram gravadas no DNA. Se as adaptações acontecem por motivo não gravado no DNA, sua transmissão depende exclusivamente da transferência citoplasmática, o que é relativamente fácil em organismos unicelulares, mas mais complicado em organismos que possuem linhagens celulares gaméticas distintas das somáticas. Podemos até mesmo conjecturar que durante um processo de adaptação a um ambiente inóspito inicialmente, este mecanismo permita que novidades evolutivas gravadas no DNA aconteçam e sejam mantidas.

A crítica ao trabalho de Susan Lindquist de que isto não passa de uma doença de laboratório, entretanto, persiste, pois ela não observou este fenômeno na natureza. Ainda.

Mas onde está o problema com a evolução? Mesmo assumindo que isto seja comum até mesmo na natureza, mesmo em organismos pluricelulares, em que isto torna a evolução errada e o criacionismo correto? Criacionistas insistem em dizer que não temos certezas, mas isto é ciência, e isto é a coisa mais linda da ciência: não, não temos certezas absolutas. Certezas absolutas são particularidade dos dogmas religiosos. O que temos são evidências e mais evidências de que Darwin estava coberto de razão. Neste caso em específico, onde é que Darwin errou? Darwin fala de DNA em que página de seus livros? O que temos feito cada vez com mais sucesso é desvendar o mecanismo pelo qual (ou os mecanismos) a evolução acontece. Se os príons fizeram parte disso, ótimo, vamos então compreender como!

Uma coisa bastante interessante que este estudo nos mostra vai justamente contra o argumento de Michael Behe sobre a complexidade irredutível, pois ao contrário do que aconteceria com um Arquiteto Inteligente (que os adeptos insistem que não é um deus), este príon gera uma infinidade de proteínas diferentes e uma ou outra vai ser responsável pela sobrevivência da célula, não todas. Se houvesse um Arquiteto Inteligente, o príon faria só o que é absolutamente necessário. Mas o que vemos, por outro lado, é uma quantidade de novas proteínas que são selecionadas. Lembrem-se: os pesquisadores colocaram as linhagens para crescer em um meio seletivo e observaram os sobreviventes.

Por fim, a velha história: “Cientistas tem cada vez mais perguntas”. Sim! E isso é maravilhoso! Se você é um cientista e suas pesquisas não geram mais perguntas, lamento muito. Algo deve estar errado.

 

 

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