O que torna as escolas federais melhores?

Esta é uma pergunta difícil. Duvido muito que eu consiga responder, mas aqui seguem algumas reflexões que podem ser úteis (ou não).

O MEC acaba de divulgar o resultado do ENEM 2010. Por que é que demora tanto, não sei. E discutir isso é pano pra outras reflexões.

Dentre as 100 melhores notas do ENEM figuram apenas 13 de escolas públicas e todas elas (salvo engano) de Colégios de aplicação Federais, escolas militares ou institutos tecnológicos federais. Por que será que não há escolas públicas comuns, aquelas Estaduais que todos conhecemos bem, entre as 100 melhores? O que o Coluni, Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa, melhor escola pública no ENEM 2010 tem de diferente das demais?

Talvez possamos discutir alguns pontos.

Um dos pontos mais insistentemente questionados é o salário dos professores. Professores da UFV, mesmo os do Coluni, são bem melhor remunerados que os professores das escolas estaduais. Isto é fato (especialmente em Minas Gerais, onde os professores estaduais estão entre os que recebem abaixo da média nacional). Mas será que simplesmente aumentar os salários resultará em alunos mais bem preparados para fazer boas provas do ENEM? Até acredito que um bom salário seja motivador. Mas acho que este não é o maior dos problemas. Aumentar o salário pode até aumentar a motivação inicial dos docentes, mas não a longo prazo e não o suficiente para, sozinho, torná-lo um profissional melhor. Os professores das instituições federais, em geral tem no mínimo mestrado, sendo muitos com doutorado completo. Lamentavelmente o título não torna a pessoa um profissional melhor por definição, mas a maioria terá, pelo menos, um acúmulo de conhecimento que pode ser importante.

A matéria sobre o Coluni deixa claro que a questão também não é escola em período integral, mas aponta uma outra questão acerca dos professores: eles não precisam ficar 40h por semana em sala de aula. Quando não estão em sala de aula, eles podem prestar atendimento aos alunos e desenvolver trabalhos extra-classe utilizando a estrutura da Universidade. Os alunos tornam-se mais motivados ao conviver com a realidade da Universidade, e ao participar de atividades que colocam seu conhecimento à prova. Particularmente tenho visto algo similar acontecendo até mesmo por aqui. Temos tido boas experiências com bolsistas de Iniciação Científica Jr (estudantes de ensino médio de escolas públicas estaduais que realizam atividades de pesquisa na Universidade), o que demonstra que estas atividades extra-classe podem ter uma importância maior do que se pensa. Não tenho dados concretos, mas acredito que nos últimos anos, todos os nossos bolsistas BIC-Jr foram aprovados em vestibular de universidades públicas. É claro que existe uma pré-seleção e apenas os melhores alunos da escola podem participar destas atividades e isto, em si, gera um viés complicado de administrar.

Este é um ponto importante. Este viés também existe quando analisamos o desempenho das escolas federais versus estaduais. Todos os colégios de aplicação, escolas militares e institutos tecnológicos têm vagas reduzidas e, com isso, os alunos precisam prestar uma espécie de vestibular. Isto faz com que automaticamente as escolas federais tenham alunos melhores, que conseguirão absorver melhor as informações dos professores e, certamente, serão melhor avaliadas nas provas do ENEM e nos vestibulares.

Se estas instituições absorvessem 100% dos alunos interessados o quadro mudaria? Bom, a princípio isto é utópico. Para absorver 100% dos interessados seria necessária a contratação de corpo docente massivamente, ou sucatear, fazendo com que o corpo docente existente tenha que ir para a sala de aula em todos os seus horários. Com isso, os alunos não teriam mais aquele atendimento especial. E não teriam mais as atividades extra-classe.

E levar a experiência das federais para as estaduais? Tem como? Em primeiro lugar, seria necessário mexer no quadro docente. Aumentar salários, especialmente para os que tivessem maior titulação. Incentivar a titulação também é importante, permitindo que o docente se ausente das atividades de sala de aula para cumprir seus créditos e realizar suas pesquisas. Pode-se obrigar que os docentes incluam alunos da escola nas atividades de pesquisa, o que auxiliaria no quesito motivação do aluno. Oferecer melhores salários aos mais titulados e melhor avaliados é importante (sim, sou meritocrático e não vejo bonificação por desempenho como produtivismo ou como algo ruim). Contratar os docentes em período integral e não nesse esquema de “padrões” que são ridículos. Bons salários, período integral, dedicação exclusiva e carga horária máxima em sala de aula em 20h para aqueles que desenvolvem trabalhos extra-classe com os alunos.

A proximidade com as Universidades, possibilitada pelos projetos de Expansão e REUNI do Governo Federal são de extrema importância. Mais do que formar professores, as licenciaturas destes projetos devem ser trabalhadas para auxiliar no que está faltando nas escolas estaduais, pois levar 100% do modelo das escolas de aplicação federais para as escolas estaduais é utopia mesmo.

Enfim, isso é só pra começar a discussão.

 

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