Criacionistas e o método do papagaio

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Uma das estratégias utilizadas pelos criacionistas para atacar a biologia evolutiva é gritar insistentemente a mesma ladainha, mesmo estando errado, mesmo tirando as citações do contexto e mesmo já tendo sido abalroados com respostas bem fundamentadas todas as vezes. Vou chamar este de método do papagaio.

Nada de novo, apenas repetição do mesmo. Talvez seja no intuito de vencer pelo cansaço ou ainda repetir aos crédulos fanáticos seguidores que não pensam por si, de modo que isso de alguma forma dê a eles confiança. As evidências estão aí, mas o chefe não abandonou o barco… deve ter algo de verdadeiro, não? Outra opção é que fazem isso para autoafirmação, pois nem mesmo eles podem acreditar em tanta coisa mal escrita, errada ou deliberadamente manipulada.

Um exemplo quente?

O professor da Unicamp, Leandro Tessler, tem sido insistentemente chamado de desonesto pelo conhecido criacionista Enézio de Almeida. Enézio é figura carimbada nas discussões sobre criacionismo. Enézio insiste que há um complô contra as novas evidências que demonstram que a evolução é uma fraude. Ele vive reclamando dos livros didáticos que falam sobre a mariposa salpicada e a revolução industrial (exemplo clássico de mimetismo e seleção natural), da fraude do Homem de Piltdown e por aí vai. Eu já escrevi outras vezes sobre estes assuntos, por isso não vou me dar ao trabalho agora. Quem tiver interesse, este é o texto sobre as mariposas Biston betularia e este sobre o Homem de Piltdown.

Pois bem, hoje, em mais um de seus ataques gratuitos ao professor Leandro Tessler, Enézio cita pesquisas sobre microRNAs do pesquisador Kevin Peterson. Enézio retira três afirmações deste pesquisador de uma reportagem de Elie Dolgin para a revista Nature em 2012:

“estão detonando ideias tradicionais sobre a árvore da família animal”

“Eu tenho observado a milhares de genes de microRNAs, e eu não posso encontrar um só exemplo que pudesse apoiar a árvore tradicional”

“Os microRNAs são completamente inequívocos… eles dão uma árvore totalmente diferente da que todo mundo quer ver”

Segundo Enézio, estas três frases significam que “a hipótese da descendência com modificação, o aspecto mais fundamental da teoria da evolução de Darwin, foi para a lata de lixo da História da Ciência”.

De onde é que ele tirou esta ideia tosca? Ele pescou o que achou que seria útil no meio do texto e descartou o resto. De forma alguma as pesquisas de Peterson depõem contra a teoria da evolução de Darwin! Basta ler o texto completo. Na realidade, Peterson tem demonstrado que as filogenias baseadas nos microRNA são eficientes para recuperar a história evolutiva de vários grupos, incluindo mamíferos. No entanto, o agrupamento filogenético que ele tem visto com estes dados sugerem uma história diferente para os mamíferos. Até aí, não há absolutamente problema nenhum! Ele não detona Darwin ou joga a evolução na lata de lixo! Apenas mostra uma história diferente, mas de qualquer forma, baseada nos mesmos princípios que todos os demais estudos são realizados!

Se ele estivesse dizendo algo que fosse contra a teoria evolutiva, não publicaria um artigo sobre o processo evolutivo de diferentes linhagens de microRNAs nos eucariotos, não estaria validando e propondo métodos para estudo filogenético, bem como apresentando o grande potencial dos microRNAs para estudos filogenéticos, não aplicaria estas sequências em estudos de filogenia de tartarugas e lagartos, ou de esponjas, ou ainda algo que suporta a monofilia dos hemicordados! Qualquer tipo de estudo destes apenas comprova o que Darwin dizia há mais de 150 anos. A diferença é que temos metodologias para avaliar.

Dentro dos estudos sobre sistemática, é muito comum haver novas evidências que às vezes mudam o que se pensa sobre a história evolutiva de determinado grupo. No início eram apenas evidências morfológicas, com características morfológicas. Hoje existem sequências de genes. Vez ou outra um pesquisador aparece com uma nova filogenia de um grupo já bastante estudado, mas isso não significa que a evolução está errada e vai para o lixo! Pelo contrário, apenas prova que evolução é ciência. Que frente novas evidências as explicações precisam mudar. É óbvio que as novas evidências precisam ser bem embasadas e talvez Peterson precise mais tempo e evidências paralelas para provar o que está afirmando (veja a figura, demonstrando a árvore filogenética tradicional de mamíferos, baseada em morfologia e várias outras características de sequências moleculares comparada com a árvore filogenética proposta por Peterson).

Comparativo entre a árvore filogenética tradicional para mamíferos e a árvore proposta por Peterson e colaboradores, baseado nos microRNAs

Comparativo entre a árvore filogenética tradicional para mamíferos e a árvore proposta por Peterson e colaboradores, baseado nos microRNAs

Enézio pode continuar repetindo seu mantra, como um papagaio. Agora, como é que chamamos alguém que tem acesso a tudo isso, lê o texto completo e mesmo assim só cita uma parte tirando uma conclusão que não tem nenhum embasamento dos fatos? A resposta é toda sua.

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