Autofecundação geraria clones?

Aproveitando que a genética está na moda com esta “discussão” entre o pastor Silas Malafaia e o geneticista Eli Vieira e, aproveitando uma pergunta de um amigo pelo Facebook, resolvi fazer um texto rápido sobre o assunto.

Não vou entrar no mérito da questão da genética do comportamento (pensei e comecei vários textos neste sentido, mas desisti). Na verdade, o que vou comentar é sobre uma questão bem mais de base. De início de compreensão do que é genética. O pastor até poderia utilizar para começar a aprender sobre genética antes de querer se meter em coisas mais complicadas. De qualquer forma, diz bem respeito à sua guerra contra a homossexualidade. E se fosse possível a reprodução humana a partir de dois pais ou duas mães?

Pois bem, meu amigo me apresentou esta matéria da revista Galileu, que fala sobre questões avançadas de reprodução humana (questões ou especulações, para ser mais exato), entre elas a reprodução a partir de dois pais ou duas mães. Cientistas chineses alegaram obter óvulos de rato em laboratório a partir de células-tronco masculinas. Isto teoricamente implica na possibilidade de geração de filhos a partir de dois homens. Em 2004 pesquisadores japoneses obtiveram ratas criadas pela fusão de dois óvulos. A matéria da Galileu aponta como uma possível solução para casais homossexuais.

Enfim, tudo isso já está na matéria da Galileu. A questão de meu amigo foi outra. E se este óvulo produzido pela diferenciação de células masculinas fosse fecundado por um espermatozoide do mesmo doador, o resultado seria um clone? Ou seja, uma autofecundação desta forma, geraria um clone?

A resposta é não. Desta forma não geraria um clone. Um clone é um organismo que tem uma cópia exata do genoma do ser clonado. Todos os genes que estão em homozigose continuarão em homozigose. Os que estão em heterozigose permanecerão em heterozigose. Clones como a ovelha Dolly, por exemplo, podem ser produzidos inserindo-se o conteúdo genético completo de uma célula doadora em um óvulo desprovido de material genético. O óvulo então irá se desenvolver tal qual uma célula recém fertilizada.

Para relembrar e seguir a linha de raciocínio, o ser humano possui dois conjuntos cromossômicos (é diploide), cada um com 23 cromossomos. Chamamos cada par destes de homólogos – os pares provenientes um do pai e um da mãe e que são responsáveis por portar os alelos de cada gene. Se estes alelos são iguais dizemos que o gene está em homozigose. Se estes alelos são diferentes, dizemos que o gene está em heterozigose.

A questão é que os gametas (óvulos e espermatozoides) são produzidos por um método de divisão celular chamado de meiose. Este processo reduz o conteúdo genético das células pela metade, separando os cromossomos homólogos. Não há em humanos mecanismo que faça com que todos os 23 cromossomos que vieram do pai migrem para um lado e todos os 23 cromossomos que vieram da mãe migrem para o outro lado (ou polo, se preferirem) da célula no final da divisão, de modo que para cada par cromossômico este processo é aleatório e independente. Esta é a base da segunda lei ou segundo princípio de Mendel (lembram? O pai da genética). Este princípio é o princípio da segregação independente, que afirma que dois genes segregam de forma independente um do outro (como foi comprovado posteriormente à Mendel isso vai depender da distância entre os genes se eles estiverem no mesmo cromossomo, mas é extremamente certo se estiverem em cromossomos separados). Ou seja, os genes que estão no cromossomo 1 se separam de uma forma enquanto os genes do cromossomo 2 se separam de outra forma. Isto significa que no final do processo de meiose teremos 223 diferentes conjuntos cromossômicos. Partindo deste princípio, uma destas células terá exatamente a mesma configuração do espermatozoide que gerou o indivíduo e uma delas terá exatamente a mesma configuração do óvulo que o gerou.

Ou seja, apenas uma célula em cada 223 originaria o mesmo óvulo e uma em cada 223 originaria o mesmo espermatozoide que formaram o indivíduo que sofreria a autofecundação para que ele tivesse um clone seu.

A probabilidade, na realidade, é muito menor. No início do processo de meiose, mais especificamente na prófase I, acontece a recombinação, que é uma forma de embaralhamento dos genes que estão nos cromossomos homólogos, de modo que no final das contas, não sobra praticamente nenhuma possibilidade de um gameta transportar exatamente as mesmas informações daquele gameta que originou o indivíduo que estamos observando.

Assim, na formação do gameta existe a distribuição aleatória dos alelos e, também, a formação de novas combinações em cada cromossomo, o que impede que este tipo de autofecundação seja uma clonagem.

Existe uma outra curiosidade em relação à autofecundação. Enquanto a autofecundação feminina produziria essencialmente mulheres, a autofecundação masculina produziria homens e mulheres, numa proporção de 1/3 mulheres e 2/3 homens. Isso acontece pois 1/4 dos zigotos seria YY, que são inviáveis e não poderiam ir adiante – letais.

Na natureza muitas plantas realizam autofecundação, no entanto em animais isso é mais restrito, podendo-se destacar casos de partenogênese em abelhas e alguns lagartos. Entretanto, tanto em plantas quanto em animais já foram encontrados mecanismos que dificultam este processo.

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