A Plantação

Hoje é a vez de outro conto. Mais uma vez, se puder fazer a gentileza de avaliar na Amazon, agradeço.


“De quanto foram as perdas desta vez?”

A voz dele parecia esvanecer. Mais um prejuízo e a situação poderia ser incontornável. Perderia a fazenda inteira. Não fazia muito tempo desde que toda a plantação tivesse sido dizimada por uma praga desconhecida. Uma bactéria ou um vírus, talvez. Ninguém sabia. Não bastasse as pragas já conhecidas, agora isso. Vários profissionais do agronegócio visitaram a fazenda. Inúmeros produtos foram lançados na plantação. Nada foi eficiente.

De um momento para o outro a planta simplesmente murchava e caía. E com a primeira queda vinham as demais, uma após a outra, como um dominó macabro. E tão misterioso quanto seu início tinha seu final. Por vezes era apenas uma linha. Outras formavam um círculo perfeito. Não faltou quem comparasse com as dobraduras observadas nos círculos das plantações europeias supostamente feitas por alienígenas e que por fim se provaram apenas trotes de agricultores criativos.

No entanto, por ali nada sugeria um trote. O fazendeiro não ganhara nada com isso. Tornou-se famoso durante alguns dias, é bem verdade. Mas isso não o fez ganhar mais dinheiro. Pelo contrário. Um bando de curiosos se aglomeraram durante meses em suas terras, destruindo parte da plantação não devastada pelo misterioso fenômeno. Começaram a desconfiar de fraude, e o que no início era um namoro com imprensa e curiosos, tornou-se um divórcio raivoso, afinal, a mídia cansou-se e queria o retorno do investimento para a cobertura em nível nacional.

Tanto barulho chamou a atenção de órgãos governamentais e cientistas. O medo do alastramento de uma praga sem precedentes e sem explicação deixou todos em alerta. Até o momento não havia registros de nada semelhante em outros locais, mas o ponto de origem do mistério estava estrategicamente localizado em uma região altamente produtiva, celeiro do país.

Depois da queda das restrições, nenhuma árvore havia sobrado na região, muito menos barreiras florestais que pudessem isolar as plantações vizinhas de possíveis pragas. Tudo era compartilhado à medida em que o vento disseminava pólen e gotículas de defensivos. Os cientistas que alertavam para a queda das restrições foram calados, alguns com grandes verbas para pesquisas direcionadas aos interesses governamentais, outros acabaram mudando-se para outro lugar e nunca mais foram vistos, se é que você entende.

O resultado foi um enorme avanço na área plantada, em sua grande parte por “commodities” convertidas facilmente em dinheiro virtual, ou então em biocombustível. Os políticos afirmavam que isto traria comida mais barata para a mesa das pessoas, mas jamais a fome esteve tão perto e tão difundida.

Enfim, já era hora de pesquisas mais aprofundadas. Pelo menos era o que o fazendeiro pensava, e era o que o governo queria. Milhões em dinheiro foram disponibilizados para descobrir o que estava acontecendo. Amostras foram colhidas, testes foram feitos. Amostras de solo de vários pontos afetados ou não pelo misterioso dano foram colhidas e analisadas em espectrofotômetros e cromatógrafos. Nenhuma anomalia dentre os elementos químicos do solo foi observada. Não havia diferença no solo onde caíra a primeira planta e solos vizinhos não afetados. O ar também foi analisado. Escrutinaram tudo na busca por componentes poluentes ou radiação. Instrumentos meteorológicos foram instaladas e as variações normais de temperatura e umidade não explicaram os resultados. Análises metagenômicas foram feitas no solo e água utilizada para a irrigação, e nenhuma bactéria ou outro organismo vivo portador de DNA ou RNA que pudesse explicar o que estava acontecendo foi encontrado. Nada além da microbiota normal do solo.

Plantas murchas foram escrutinadas na totalidade, desde a ponta da raíz até as últimas gemas apicais. Nada. Nenhum desbalanço químico foi detectado. Nenhum vírus. Análises genômicas foram feitas e não foi encontrado no DNA absolutamente nada que pudesse ser o responsável pela estranha doença. Um consórcio internacional de cientistas trabalhou durante meses na busca por pistas que pudessem explicar o que estava acontecendo. A comparação com as plantas sadias mostrou o já esperado. São todas absolutamente similares em sua composição genética, uma exigência do mercado. Com um ambiente altamente controlado, desde a adição dos nutrientes corretos no solo, o controle do regime hídrico, e os defensivos mais comuns, as plantas não poderiam ser diferentes entre si.

Porém, de alguma forma não estavam sendo todas afetadas pelos estranhos eventos. E a forma como acontecia era o que mais intrigava os cientistas. Sempre tinha início com uma única planta, e a partir dela se alastrava formando os estranhos padrões.

O governo rastreou as sementes utilizadas pelo fazendeiro. Outras plantações originadas do mesmo lote do fabricante se desenvolveram sem problemas em várias partes do país. O vizinho do fazendeiro plantou os mesmos grãos e nunca observou o fenômeno.

Restava observar o fenômeno enquanto ele ocorria. Centenas de câmeras com infravermelho foram instaladas para vigiar tudo noite e dia. Sensores de moviventação sísmica, radiação, vento, umidade, e tudo mais que pudesse ser medido foram espalhados pela plantação. Se qualquer alteração na atmosfera ou no solo acontecesse nos arredores dos sensores, tudo seria registrado. Foram dias de tensão enquanto os primeiros cotilédones rompiam os grãos do terreno fértil e ramos migrassem na direção do Sol.

“Toda essa interferência na plantação vai acabar arruinando o trabalho” afirmou um dos cientistas. Era um risco calculado. Se ao menos servir para obter alguns registros no exato momento em que a primeira planta murche e caia, os softwares de bioinformática conseguirão eliminar o ruído dos artefatos da técnica para isolar o responsável.

De fato, houve interferência. Embora neste ciclo nada tivesse acontecido, o fazendeiro teve prejuízo. Trilhas foram necessárias para a instalação dos equipamentos. Trechos foram recortados para obtenção de amostras. Com a flutuação cambial e o preço das “commodities” plantadas em queda, as menores perdas significam prejuízo. O governo garantiu apoio, mas sem a evidência de um problema real o máximo que ele conseguiu foi o subsídio nas sementes para uma nova safra. Esta não poderia falhar.

E no segundo terço do período normal de produção, aconteceu. O filho do fazendeiro não conseguira dormir na noite anterior saindo antes do sol nascer para vistoriar a plantação. Da sede da fazenda era impossível observar que havia danos, mas ele sentia…

“Cerca de um quinto da plantação se foi”, respondeu o filho do fazendeiro. Pelo menos os cientistas teriam dados para analisar. Talvez com alguma resposta o fazendeiro pudesse obter um empréstimo para não perder a fazenda. Apesar de contar com um terreno que anos antes seria considerado grande, a liberdade dada pelas novas normas ambientais e econômicas já eram suficientes para que sua fazenda fosse considerada pequena. Certamente um fazendeiro maior estaria disposto a comprar tudo por uma bagatela, tendo em vista a necessidade da quitação da dívida com os bancos. Na maioria das vezes, inclusive, os próprios bancos passavam a administrar os negócios das fazendas devedoras. Agências independentes estimavam que na realidade um terço da plantação do país já estava nas mãos de banqueiros ou de especuladores da bolsa de valores, onde também são determinados os preços dos produtos.

Na mesma manhã os técnicos recolheram todo o equipamento. Centenas de horas de gravações em vídeo deveriam ser analisadas na busca de qualquer perturbação. Dados e mais dados meteorológicos e sismológicos para serem analisados. Dias e dias de captura de dados sobre a atmosfera e os níveis de radiação de solo, ar e água. Nada parecia ter escapado.

Em alguns minutos os técnicos detectaram a origem do fenômeno daquele momento. A partir de uma única planta central, um círculo com um raio de 600m simplesmente murchou e caiu em uma só noite. Até então nenhum sintoma havia sido detectado. Nenhum sinal estava presente. Elas simplesmente murcharam.

“Não seja estúpido” gritou o fazendeiro com seu filho, que havia sugerido que as plantas simplesmente haviam perdido a vontade de viver. “Você pode ficar aí com seus especialistas e cientistas, mas não vão descobrir nada, pois não há nada para se descobrir, as plantas simplesmente não querem viver”. Não é de se espantar que toda uma sorte de conjecturas paranormais ou sobrenaturais estivessem sendo hipotetizadas pelos mais ingênuos moradores da região. Alguns juravam ter visto uma luz no céu na exata noite da primeira queda, bem na direção do centro da plantação. Outros afirmam que sentiram calafrios estranhos em todos os dias relacionados com a ocorrência do fenômeno. Outros ainda diziam que uma sombra tinha percorrido a plantação na noite anterior à última ocorrência. “Eu vi com meus próprios olhos uma luz correndo no céu, como uma estrela cadente, bem na noite que tudo aconteceu da primeira vez” afirmou um senhor de meia idade logo que as câmeras e os jornalistas chegaram ao local. Ninguém jamais deu ouvidos. Como era de se esperar. Um famoso ufólogo havia produzido um documentário para TV sobre o mistério. Chegou a fazer um certo sucesso mas logo as pessoas esqueceram.

“Não trabalhamos com hipóteses sobrenaturais, senhor. O que estamos vendo aqui certamente tem uma explicação natural e que pode ser testada. Apenas ainda não encontramos os melhores indícios”. Desde os últimos testes, na verdade, eles sequer sabiam por onde começar. Por isso espalharam toda sorte de equipamentos na plantação inteira.

Na mesma tarde não havia mais qualquer sinal da presença de cientistas na fazenda. A mídia já havia ido embora há muito tempo. Agora foi a vez dos especialistas. Se algo pudesse ser observado, estaria nos registros dos sensores e gravadores. Ao fazendeiro cabia continuar esperando. E torcendo para que a cotação do que estava cultivando subisse nas próximas semanas, para que o prejuízo não fosse muito grande.

Enquanto isso, de dentro de uma base na cidade mais próxima, centenas de dados eram encaminhados via rede para os diversos laboratórios envolvidos com o problema. Dados eram analisados em “clusters” com centenas de processadores para minimizar o tempo de resposta.

Horas depois, com calhamaços de análises nas mãos, nenhuma resposta aparente. Uma câmera flagrou o exato momento em que a primeira planta murchou e caiu. Não houve alteração sismológica. Tampouco houve alteração de temperatura, atmosférica, de umidade ou radiação. Nada que pudesse identificar o motivo pelo qual aquela exata planta havia murchado e caído de forma tão rápida e repentina. E tão rápida quanto a primeira foram as que estavam ao seu redor. Câmeras flagraram o efeito dominó no exato instante em que cada nova fileira vizinha murchava e caía. A única informação nova que puderam alcançar neste momento foi o tempo de propagação e o tempo de resposta das plantas ao redor da primeira queda. Um pequeno lapso praticamente imperceptível ao olho foi observado em relação a cada fileira vizinha que ia ao chão. A queda era quase comparável com a perda de energia de uma onda batendo em obstáculos, mas era mais do que isso. As primeiras plantas caíam de imediato. As últimas levaram cerca de um segundo para murchar e cair. E a fileira subsequente não foi afetada.

“As plantas são geneticamente iguais, ou seja, qualquer que seja o fator, ele é desencadeado na primeira ocorrência e dissipado nas fileiras vizinhas, perdendo sua efetividade com o aumento da distância” afirmou um cientista na videoconferência de apresentação e discussão dos dados. “Mas isso não explica todos os padrões observados anteriormente”, confrontou outro pesquisador. “De fato não, mas não temos dados para analisar sobre a ocorrência dos outros padrões”, respondeu o primeiro. “De qualquer forma, senhores, podemos admitir que a ocorrência é física?” perguntou um deputado, membro do governo na equipe de trabalho. “Não há outra explicação, senhor deputado”. O fato é que apesar de não haver explicação sobrenatural, tampouco os cientistas tinham uma explicação natural sobre o que estava ocorrendo, embora jamais fossem admitir. “Novos testes e novas observações são necessárias”, argumentavam os chefes de laboratórios. “Não podemos financiar estas pesquisas por muito mais tempo, senhores, os nossos financiadores estão questionando o fato de não termos lidado de maneiras mais rápidas com um evento isolado como este”, concluiu o deputado.

Os cientistas sabiam muito bem do que se tratava esta maneira mais rápida de resolver o problema. Uma praga bem menos misteriosa que surgira há alguns anos foi exterminada com a providencial erupção de um vulcão há muito inativo na região. Ou seria um míssil do exército? Ninguém sabia ao certo. Ou ninguém queria saber. A região era remota e isolada. Entretanto, toda a mídia e a repercussão desencadeada pelo fenômeno inexplicado em uma fazenda de uma região altamente produtiva não poderia demandar soluções rápidas.

Ao final da reunião estabeleceu-se um novo cronograma. Mais uma rodada de análises seriam tomadas da mesma forma que esta. O governo daria as sementes novamente para o fazendeiro, a fim de incentivá-lo a continuar plantando. Encerrada a reunião, cada cientista voltou para sua sala ou laboratório.

Em um certo laboratório, durante uma rápida reunião de confraternização e motivação para o novo cronograma, o técnico de campo contava para um grupo de cientistas a história do filho do fazendeiro. “Aí ele disse que as plantas tinham perdido a vontade de viver, acredita?” disse ele, rindo com os demais. “O que é que planta sente para sofrer com isso?”, perguntou um estagiário. “Ok, pessoal, vamos voltar ao trabalho” declarou o cientista sênior do laboratório.

“Não pode ser isso” pensou o cientista sênior consigo mesmo. Chegando em sua sala puxou um antigo caderno de anotações, uma agenda. Hoje em dia está tudo online. Todos os cientistas são rastreados pelo governo. Apesar de viverem em um país livre e democrático, ele sempre é mais livre e democrático para uns ou outros. Quando todas as atividades dos cientistas do país foram interligadas em um sistema com currículo, agenda e diários online, por mais que houvesse criptografia de dados, eles estavam disponíveis. Mas este caderno é de antes disso. São anotações a caneta. Um contato que deveria ter sido consultado anos antes, ele lembrava. Foi na época da aprovação da lei que permitia a derrubada total da floresta. Um caso de segurança alimentar. Especialistas afirmavam que seria impossível alimentar a população sem este avanço. Mas havia algumas pesquisas…

Depois de alguns minutos revirando as páginas da agenda encontrou o que procurava. Anotações sobre um artigo publicado na época. Junto ao título e nome de autores, uma anotação: plantas conseguem sentir alterações do ambiente e responder aos estímulos. Sim, ele lembrava. Este artigo teria sido invocado para proteger as florestas durante o longo processo que culminou na aprovação da lei, mas caiu em descrédito, os autores e o estudo. Por muito tempo o trabalho foi ridicularizado por membros do governo e até mesmo por cientistas renomados. Alguns cientistas sugeriam que os experimentos fossem replicados, afinal, se pesquisas independentes afirmassem a mesma coisa, seria mais difícil desacreditar. Pesquisadores de um determinado laboratório se ofereceram para replicar o experimento. Seus resultados foram contrários ao estudo e ninguém mais o levou em consideração. Anos mais tarde um blog independente publicou uma matéria identificando o laboratório em questão, um ramo de pesquisa de uma grande empresa agropecuária, como sendo um dos principais financiadores da campanha do deputado que apresentou o projeto de lei. No entanto, a lei já havia sido promulgada e não se falava mais no assunto. Os autores do artigo original jamais conseguiram aprovar novos projetos e em alguns anos ninguém mais ouvia falar deles. “E se eles estivessem certos?”, pensou. Uma rápida busca pelas espécies estudadas pelos autores, sua distribuição pelo país… “Ah, sim! Aqui!”

As plantas que sentiam e respondiam a estímulos, de acordo com os estudos iniciais, estavam exatamente na área que foi derrubada para o grande empreendimento de fronteira agrícola aberto com a nova lei.

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