Explicando método científico e tipos de conhecimento

Na disciplina de Introdução às Ciências Biológicas que leciono no Campus Rio Paranaíba da UFV eu discuto com os alunos os tipos de conhecimento até chegar no conhecimento científico. Para trabalhar o método científico e seus desdobramentos eu proponho a eles uma pequena atividade. Não é ideia totalmente minha. Adaptei de uma atividade da revista Nova Escola (não consigo lembrar ano e número).

Sim, a proposta inicial da revista era para crianças. Entretanto, em se tratando de conhecimento e método científico, será que há diferença em relação aos calouros de um curso de universidade?

O procedimento consiste na análise de caixas lacradas e a formulação de hipóteses testáveis sobre o que há dentro.

Jpeg

Caixas utilizadas no procedimento deste ano (2016). 

A ideia é assim mesmo, bem simples. Cada grupo fica com uma caixa. A regra principal é que eles não podem violar a caixa. Ela precisa permanecer intacta.

Eles tem uma aula para fazer todo tipo de observação sobre a caixa utilizando o que tem em mãos, ou seja, basicamente seus sentidos. O senso comum utiliza basicamente os sentidos para chegar a um conhecimento. Com base nestas informações iniciais eles precisam elaborar hipóteses sobre o que há dentro das caixas. Para ser uma hipótese científica, ela precisa ser testada. Assim, eles precisam propor um teste real que permita testar sua hipótese. E como o método científico propõe, eles precisam prever os resultados para poder aceitar ou rejeitar sua hipótese.

Por exemplo, digamos que chacoalhem a caixa e observem que tem barulho metálico. Podem propor que é um metal. Esta hipótese pode ser testada, por exemplo, com um ímã. Se responder ao ímã a hipótese é confirmada. Isso não responde o que há dentro da caixa, mas leva a outras perguntas diminuindo aos poucos as possibilidades.

Não é necessário realizar os testes dentro da sala de aula. Muitas vezes os cientistas elaboram hipóteses sobre um assunto quando eles próprios não conseguem testar. Seja por deficiência na tecnologia atual, seja por qualquer outro motivo. Assim, mesmo que exija equipamento que não dispomos em sala de aula, elaborar uma hipótese coerente com os dados iniciais e que possa ser testada, sendo passível de ser confirmada ou rejeitada, é um importante passo para entender o conhecimento científico.

O mais importante a ser compreendido pelos alunos não é a sua capacidade de adivinhar o que está dentro da caixa. Alguns até acertam. No meu caso, eles jamais saberão se acertaram ou não, pois eu não vou dizer. Se eu disser o que há dentro, temos um conhecimento revelado, que deixa de ser científico e passa a ser “religioso” – eu, o criador, conto para alguém a “verdade” e este repassa aos demais na forma de uma revelação. Aliás, isso pode ser feito através de algum aluno do nosso laboratório, dizendo a quem perguntar que sabe o que tem dentro e dando uma resposta. Assim temos uma diferenciação do conhecimento do senso comum, religioso e científico.

Não responder o que há nas caixas, na minha opinião, é o principal ponto da brincadeira. Ciência não alcança a verdade, mas pode chegar muito perto. E a resposta depende das condições do teste. Quanto mais próximo estivermos da verdade utilizando o método científico, mais as predições se confirmam, ao ponto que muitas vezes podemos afirmar com pouca margem de erro que a verdade foi atingida. No entanto, caso novas evidências ou novos experimentos comecem a ir contra nossa principal hipótese, devemos descartá-la e considerar novas hipóteses.

Enfim, um exercício bacana, simples e que permite brincar com os diferentes tipos de conhecimento. Na próxima aula pretendo discutir as hipóteses sugeridas por cada grupo, refinando a forma como podemos pensar em hipóteses e experimentações.

 

2 thoughts on “Explicando método científico e tipos de conhecimento

  1. Rubens Pazza disse:

    Olá, Luiz! Obrigado pela visita e pelas dicas. Em um dos anos eu deixei que todos os grupos analizassem todas as caixas e em outro ano eu fiz passei os trabalhos para eles avaliarem como revisores mesmo. É bem interessante o resultado. Este ano eu mesmo discuti com eles cada explicação pois eles tem muita dificuldade em definir o que é a observação inicial, elaborar hipótese, etc. Assim acho que consegui explicar melhor o método. De qualquer forma, é bem bacana.

  2. Olá Rubens! Parabéns pelo blog!

    Excelente esse experimento. Pensei em etapas além.

    Após os grupos esgotarem as hipóteses e os experimentos propostos pelos membros, você poderia trocar as caixas aleatoriamente entre os grupos.

    Cada grupo teria que ser capaz de reproduzir os experimentos propostos pelos grupos "originais". Novos experimentos poderiam ser propostos para refutar ou confirmar ainda mais a hipótese original.

    Mais além, no fim do experimeto, você poderia ser o "editor" e escolher os "revisores" em uma espécie de revisão pelos pares e publicar os melhores métodos, resultados, conclusões e discussões sobre cada caixa.

    Quem dera eu ter uma experiência dessas na faculdade. Melhor ainda se fosse no colégio!

    Mais uma vez, parabéns pela iniciativa! Vou guardar a ideia também!

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