O malvado óleo de palma

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Notícias como estas se espalham como fogo em palha na internet, com milhares ou milhões de visualizações, curtidas e tudo mais. Bom, levei uns 10 minutos para desvendar alguns detalhes que vou compartilhar sobre o óleo de palma.

O óleo de palma, ou azeite de dendê é um dos óleos vegetais mais consumidos no mundo. É produzido a partir do fruto do dendezeiro (o que na verdade o torna um azeite, mas tudo bem). Sua principal zona de cultivo são regiões tropicais, especialmente na Indonésia e Malásia.

Como qualquer atividade agrícola, é responsável por desmatamentos e destruição de habitat, no caso, de um grande primata parente nosso, o orangotango.

Por conta disso, algumas pessoas estão espalhando esta imagem com um texto falando sobre os problemas ecológicos do cultivo e extração do óleo de palma.

nutella

 

Como se pode ver, o óleo de palma está presente no Nutella, bem como em uma imensa quantidade de produtos industrializados em que vai óleo vegetal, especialmente devido a seu preço e sabor.

Até aí, nada de incoerente. A questão é que sendo um cultivo que vai desde pequenas propriedades familiares até grandes extensões, certamente possui os problemas de qualquer cultivo agrícola. Aqui, entretanto, obviamente tem a questão da espécie bandeira, o orangotango.

Qual seriam as opções? Eliminar o uso de óleo de palma? Bom, isso acarretaria em um grave problema econômico para as regiões onde se cultiva a palma, onde cerca de 4,5 milhões de pessoas dependem deste cultivo.

Outro problema é que seria necessário obter outro óleo para substituí-lo. Atualmente são cultivados cerca de 20 milhões de hectares. Apenas no Brasil já são cultivados cerca de 30 milhões de hectares em soja, um óleo que poderia concorrer com a palma em alguns aspectos. Tendo em vista que o óleo de palma rende cerca de 4 a 10 vezes mais que outros óleos, seria necessário expandir o terreno de cultivo de soja em no mínimo mais de 80 milhões de hectares. Quem leu o texto e compartilhou por aí, chegou a pensar neste assunto?

É óbvio que a biodiversidade da Indonésia, uma das maiores do mundo, é uma preocupação considerável. Por conta disso, várias organizações não governamentais, incluindo a WWF empenharam-se em criar um Fórum Global sobre Óleo de Palma Sustentável , que definiu critérios para a produção sustentável do óleo de palma. Longe de ser uma resolução imediata, pelo menos é algo palpável e que pode ser acompanhado. Até mesmo o Brasil possui um programa de produção sustentável do óleo de palma.

Enfim, para os que gostam de uma boa teoria da conspiração, a quem serviria o boicote aos produtos que tem óleo de palma?

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Complementando (18 de Junho de 2015) :

Esta semana a Ministra de Ecologia da França afirmou em um programa de TV que os franceses deveriam parar de consumir Nutella devido ao impacto ambiental de sua produção. Isso gerou um certo mal estar com o Ministro das Relações Exteriores da Itália, afinal, a Ferrero é Italiana.

O ponto é: porque Nutella? Como escrevi acima, é óbvio que a plantação de palma impacta o meio ambiente, da mesma forma que a produção de soja no Brasil (não podemos fechar os olhos para isso desviando o assunto para a Indonésia). O fato é que a Ferrero já usa 75% de seu óleo a partir de fontes sustentáveis, perdendo apenas para uma fábrica de detergentes, enquanto várias indústrias francesas usam menos de 17% de óleo de palma de fontes sustentáveis.

Fica a questão: a ministra francesa ou tinha este conhecimento e promoveu o boicote propositalmente, ou é ignorante e não deveria falar bobagens na TV. Talvez possamos aplicar a Navalha de Hanlon e não atribuir à maldade o que pode ser adequadamente explicado pela estupidez. O fato é que dentro dos movimentos ecologistas falta muita informação e sobra ideias à toa, sem pensamento em consequências.